Mértola recebe, no próximo fim-de-semana, o Terras sem Sombra que vai redescobrir do legado islâmico

O fim-de-semana Terras sem Sombra de 15 e 16 de Fevereiro, em Mértola, propõe um regresso ao passado, com os pés bem assentes no presente e o olhar no futuro. O programa de música apresenta a excelência ímpar do Canto Gregoriano a cappella pelo contratenor espanhol José Hernández Pastor. A acção de Património convida a olhar o território através do legado do Islão e, no âmbito da Salvaguarda da Biodiversidade, redescobrem-se práticas agrícolas sustentáveis.

O Festival Terras sem Sombra percorre no próximo fim-de-semana (15 e 16 de Fevereiro) o concelho de Mértola. O Festival – na sua tríplice abordagem de música, património e biodiversidade – propõe naquela região alentejana um olhar que resgata o passado, a partir do presente, com vista ao futuro.

Assim, o Canto Gregoriano vai ouvir-se a cappella na interpretação de certo modo única do contratenor espanhol José Hernández Pastor, tendo por palco o ambiente de um monumento muito especial, a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Entre-as-Vinhas, antiga Mesquita, no Sábado, às 21h30. O programa, imbuído de profunda espiritualidade, intitula-se justamente “Nas Asas do Espírito – Voz e Silêncio”. O carácter intimista do espectáculo e um repertório que aflora temas como a luz, a esperança ou o milagre indiciam uma noite repleta de emoções. Na apreciação de Juan Ángel Vela del Campo, director artístico do Festival, Hernández Pastor “transmite uma experiência em que se fundem a voz e o silêncio, a reflexão e a serenidade, o recolhimento e a beleza meditativa”.

Também Ángel Medina, catedrático de Musicologia da Universidade de Oviedo, elogia o talento do contratenor valenciano: “Admiro o seu trabalho, a beleza da sua voz, a subtileza da sua maneira de interpretar as palavras e a sua afinação, assim como a inquietação artística que orienta a sua carreira”. O musicólogo colaborou com Hernández Pastor na escolha das peças, sugerindo e cedendo alguns exemplares de grande importância musicológica no repertório do Canto Gregoriano. Sobre a qualidade do programa não tem dúvidas “este concerto cerimonial irá jornadear por muitos outros lugares, preferentemente igrejas, nas quais o intérprete deambula, aparece e desaparece, canta e deixa correr o silêncio, espargindo melodias que submergem o ouvinte num estado de concentração espiritual único”.

O legado islâmico em Mértola

No sábado à tarde, o encontro está marcado às 15h00, na Igreja Matriz de Mértola para uma viagem de redescoberta do legado islâmico em Mértola. A actividade de Património será orientada pelos arqueólogos Susana Gómez Martínez e Cláudio Torres, do Campo Arqueológico de Mértola, instituição que desde há décadas se dedica a estudar os vestígios do período islâmico naquele concelho alentejano.

Mértola foi nos séculos XI e XII, capital de um reino islâmico e um importante porto comercial nas rotas do Mediterrâneo. Aproveitando um esporão rochoso que separa o Guadiana da ribeira de Oeiras, era ponto fulcral no domínio do Baixo Alentejo. Não admira, portanto, que acolha hoje o único museu islâmico em Portugal criado para preservar os achados arqueológico e edifícios mais emblemáticos, mantendo um importante acervo que ajuda a compreender e a conhecer os mais de cinco séculos de presença islâmica na região.

O legado do Islão moldou a paisagem urbana e rural e deixou traços na vida e nos costumes da população local, mas não constituiu um facto isolado, pelo contrário, inseriu-se numa longa conjuntura, definida pela geografia e pela história. Como refere José António Falcão, director do Festival Terras sem Sombra e historiador de arte, “a herança islâmica revela-se à saciedade nas ruas da urbe, nas muralhas, nos vestígios da antiga mesquita, transformada em igreja após a conquista, em 1238, pela Ordem de Santiago, bem como as escavações de uma extensa zona habitacional, erguida no século XII”.

Recuperar práticas de agricultura sustentável

A findar o programa deste fim-de-semana em Mértola, a manhã de 16 de Fevereiro (9h30) agenda uma visita à Horta da Malhadinha, numa acção de educação para a biodiversidade e salvaguarda dos ambientes naturais e humanos. A agricultura sustentável, na Horta da Malhadinha, propriedade agrícola, pertença do Campo Arqueológico de Mértola, é exemplo de um sistema que adapta as culturas ao clima e aos solos locais. No caso vertente, a propriedade ocupa as encostas xistosas do Vale do Guadiana e recupera, desde 2010, uma antiga horta mediterrânica. Um espaço de cultivo de aromáticas para obtenção de plantas secas em modo biológico e que conta com o empenho do agricultor António Coelho. Este, será um dos guias no decorrer da visita do Festival Terras sem Sombra, a par de Dayana Andrade, perita em Ciências Ambientais e Conservação, e de Ana Morais, bióloga. A escola primária de Santana de Cambas, freguesia rural do concelho, onde uma horta minuciosamente cuidada pela comunidade escolar lhe fornece alimentos de alta qualidade, representa outra etapa nesta peregrinação pelos segredos da agricultura sintrópica.

Festival Terras sem Sombra

O Festival Terras sem Sombra, promovido pela Associação Pedra Angular, é uma iniciativa da sociedade civil que visa dar a conhecer a um público alargado um território, o Alentejo, que sobressai pelos valores ambientais, culturais e paisagísticos e apresenta um dos melhores índices de preservação da Europa.

A valorização dos recursos patrimoniais e a sensibilização das comunidades locais para a sua salvaguarda e valorização constituem as grandes prioridades do Festival. Uma iniciativa que defende a inclusão social e territorial, actuando em rede, a partir de um conjunto de parcerias com as “forças vivas” do território.

Em 2020, a 16.ª temporada do Terras sem Sombra decorrerá entre Janeiro e Julho, mantendo a sua programação centrada na música clássica, património e biodiversidade. O Festival vai percorrer os concelhos de Vidigueira, Barrancos, Mértola, Arraiolos, Viana do Alentejo, Beja, Ferreira do Alentejo, Castelo de Vide, Sines, Alter do Chão, Campo Maior, Santiago do Cacém e Odemira.

A Pedra Angular é uma associação cultural e científica, sem fins lucrativos, fundada em 1996. Tem por objectivo o estudo, salvaguarda e valorização do património ambiental, cultural e científico do Alentejo, com realce para os monumentos, paisagens, sítios, museus, colecções, bibliotecas, arquivos, galerias e bens culturais imateriais.

Dos seus estatutos faz parte, igualmente, contribuir para a dinamização e irradiação deste território, em particular nos domínios da criação e da programação artísticas, da conservação da biodiversidade, da inovação tecnológica, da divulgação científica e do apoio social.

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