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Perde Orbán, ganha Bruxelas em responsabilidade

A derrota de Orbán neste fim de semana é daquelas lições de política que deviam ser ensinadas logo no berço, porque por mais engenharias, truques ou pose de “homem forte”, no fim do dia quem decide é quem tem um boletim de voto na mão e vota.

E os húngaros decidiram. Sabiam perfeitamente o que faziam quando, em massa, puseram termo a 16 anos de poder e deram a Péter Magyar e ao Tisza uma maioria qualificada.

Convém dizer isto com todas as letras, sobretudo para certos espíritos mais delicados que estão sempre prontos a explicar aos povos o que é o seu “verdadeiro interesse”. Quem derrubou Orbán foram os eleitores húngaros, fartos de um regime que confundiu o país com o partido e patriotismo com clientelas.

O derrotado apresentou-se sempre tão ferozmente como nacionalistas nos discursos, mas aceitou, sem pudor, que J.D. Vance viesse fazer campanha como se a Hungria fosse um protetorato político americano. A soberania serviu para atacar Bruxelas, mas não para recusar o apoio ostensivo de um estrangeiro a Orbán. No fim, quem levou a sério a independência nacional, foram os eleitores. Durante anos trataram-nos como uma sociedade enganada e anestesiada pela propaganda. Afinal, eram cidadãos adultos, a tomar nota. E quando chegou a hora, manifestaram-se através do voto.

O resultado é tão eloquente que o próprio Orbán concedeu a derrota na noite eleitoral, chamou-lhe “dolorosa” e prometeu continuar na oposição.

Traduzindo, percebeu que não havia margem para encenar versões do mesmo guião do assalto ao Capitólio pela falange trumpistas incapaz de aceitar a vitória de Biden, ou a tentativa de repetição grotesca em Brasília pelos seguidores de Bolsonaro, igualmente em negação perante o resultado das urnas.

Quando um partido cai de hegemónico para pouco mais de metade dos lugares que tinha e vê o adversário atravessar a fasquia dos dois terços, não há “narrativa” que aguente. O veredito é político, é popular, é inequívoco. O povo decidiu tirar a direita iliberal europeia do poder na Hungria e elegeu a direita liberal europeia, um partido do PPE.

Claro que, agora, começa um novo capítulo, aquele que tem espaço para reconstruir instituições, recentrar a relação com a União Europeia, reformar a teia do regime anterior, tudo isto com uma sociedade profundamente polarizada e com milhões de eleitores que, goste-se ou não, continuam a achar que Orbán defendeu o país. Mas é precisamente por isso que a lição de Budapeste tem de ser sublinhada, mesmo num sistema viciado, redes de poder entranhadas e avisos internacionais sobre a integridade do processo, os húngaros conseguiram produzir um resultado que muda o tabuleiro.

Vale a pena guardar esta ideia simples, que tanta gente sofisticada tem dificuldade em engolir: o eleitorado sabe sempre o que quer. Às vezes quer os “Orbáns da vida”, outras vezes querem livrar-se deles. Às vezes escolhem quem preferíamos evitar e não gostamos, outras vezes oferecem saídas que já tínhamos dado por impossíveis.

Aconteceu agora na Hungria, quando muitos decretaram a eternidade política deste modelo, o eleitor entrou em cena e mudou o rumo.

Uma nota sobre o que esta eleição quer dizer para a Europa, porque esta derrota de Orbán é, ao mesmo tempo, um alívio e também um teste de stress.

Ao mesmo tempo que o principal sabotador interno da União Europeia, em matérias tão sensíveis como sanções à Rússia, apoio financeiro à Ucrânia ou Estado de direito, sai de cena, abre-se a possibilidade de desbloquear decisões estratégicas que Budapeste travava em nome de um alinhamento com outras geografias políticas. Mas significa também que Bruxelas perde a desculpa “Orbán” para a sua paralisia, se a Hungria, como parece querer, se recentrar no eixo europeu. 

No fim, a derrota de Orbán vale por três recados claros. Uma máquina de poder afinada durante 16 anos pode ser deitada abaixo por um eleitorado farto. Os aprendizes de autocrata pelo continente fora ficam a saber que o “método Orbán”, tem o prazo de validade que as urnas lhe concedem e por fim a evidência de que, mesmo quando as instituições falham, a democracia ainda tem muita no nosso continente.

Luis Nunes dos Santos

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