Presidente do ICOM alertou para o esquecimento dos museus do interior e refere que o futuro pode “ser dramático” (c/som)

Sob o lema “Museus para a igualdade: diversidade e inclusão” celebrou-se, esta segunda-feira (18 de Maio), o Dia Internacional dos Museu, que é organizado internacionalmente pelo Conselho Internacional dos Museus (ICOM).

Por todo o país foram várias as iniciativas que assinalaram este dia, que se tornou simbólico devido à reabertura dos museus após semanas encerrados devido à pandemia da Covid-19.

Em Beja, abriu simbolicamente o Museu Regional de Beja, onde marcou presença a Presidente do ICOM Portugal, Maria de Jesus Monge, que em declarações ao ODigital.pt mostrou a sua preocupação com as desigualdades existentes entre os museus das grandes cidades e os museus do interior do país, bem como a preocupação com o funcionamento dos espaços museológicos perante as contingências provocadas pela pandemia da Covid-19.

Maria de Jesus Monge, começou por dizer que “os museus vão tentar ir acompanhando o que vai ser exigido deles nos tempos mais próximos”, destacando que “a conjugação de datas foi feliz, porque os museus só existem se estiverem abertos e se estiveram abertos à comunidade e aqueles que os procuram, agora todos nós temos consciência que não vai ser fácil, há espaços que têm mais facilidade em acomodar as novas regras, há outros para os quais vai ser muito difícil, porque não foram construídos de raiz para terem estas funções e portanto são espaços, para além dos condicionamentos naturais para a abertura ao publico, têm agora esta obrigação adicional de conseguir manter a distância, de conseguir manter as condições de higienização que nos são exigidas pela Direcção-Geral de Saúde.”

“Temos de ser criativos, vamos ter de continuar a trabalhar para perceber como vamos dar a volta a isto”

A Presidente do ICOM Portugal acredita que “as equipas que estiveram a preparar-se para esta reabertura, estão cheias de vontade de voltar a trabalhar”, mas deixa claro que uma das preocupações “é como é que vamos conseguir trabalhar, tendo em conta que muitas das actividades que eram organizadas pelos museus eram workshops, concertos, actividades que pressupõem alguma concentração, portanto temos de ser criativos, vamos ter de continuar a trabalhar para perceber como vamos dar a volta a isto, agora é absolutamente fundamente voltar a sentir a materialidade para que nos chamam as nossas colecções, os nosso edifícios, os nosso espaços.”

“Basicamente existe o país que está nas grandes cidades do litoral e depois existe este país mais recolhido, não menos rico, mas que de facto tem sido esquecido”

Já sobre as desigualdades entre os museus das grandes cidades e os museus do interior, Maria de Jesus Monge é clara ao dizer que “existem se calhar até mais que dois países, mas basicamente existe o país que está nas grandes cidades do litoral como Lisboa, Porto, Faro, Coimbra e depois existe este país mais recolhido, não menos rico, não menos disponível para demonstrar uma riqueza imensa, mas que de facto tem sido esquecido”, dando depois o exemplo do “Museu de Beja, que é um exemplo gritante do primeiro museu nacional, pois é o primeiro museu nacional criado ainda no Século XVIII, por Dom Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, que depois vai para Évora, mas esta magnifica colecção que é aqui reunida, tem vivido muitas vicissitudes e as últimas décadas têm sido particularmente penosas e para nós, ICOM, é uma grande alegria saber que finalmente vai ser possível começar a trabalhar no sentido de dar condições para trabalhar, dar condições e equipa, porque esta equipa tem-se batido muito por isto, para darem o seu melhor”, referindo-se assim também ao protocolo assinado entre a Direcção Regional de Cultura do Alentejo e a Câmara Municipal de Beja.

“A Sul do Tejo há um único Museu Nacional, aliás só é Museu Nacional de há um ano para cá, porque antes disso o país existia aparentemente do ponto de vista museológico apenas a norte”

Mas questionada concretamente, se o em termos Governamentais os museus do interior têm sido esquecidos, a Presidente do ICOM Portugal é perentória ao afirmar que sim, referindo que “a Sul do Tejo há um único Museu Nacional, aliás só é Museu Nacional de há um ano para cá, é o Museu de Évora, porque antes disso o país existia aparentemente do ponto de vista museológico apenas a norte”, acrescentando que “é absolutamente incompreensível, até tendo em conta as magnificas colecções, os magníficos espaços museológicos que temos a sul.”

“A Rede Portuguesa de Museus deixou praticamente de cumprir as suas obrigações”

Sobre o caso do Museu de Évora, diz que é um caso “paradigmático, porque tendo sido transformado em Museu Nacional, continua a ser votado ao mesmo esquecimento que tem por exemplo o Museu de Évora, felizmente que a realidade municipal tem alguns bons exemplos, temos visto por exemplo como a rede de museus do Baixo Alentejo se tem conseguido organizar e mostrar vitalidade, mas sem apoio central é muito difícil”, questionando ainda a função da “Rede Portuguesa de Museus que é suposto existir para ser o sustentáculo de todo este tecido museológico nacional e dar-lhe também coesão, deixou praticamente de cumprir as suas obrigações, por falta de pessoal, por falta de condições objectivas.”

Questiona sobre a falta de recursos humanos nos museus, até mesmo para fazer face às continências provocadas pela Covid-19, Maria de Jesus Monge afirma que “a falta de pessoal é praticamente horizontal, quase todas as instituições museológicas têm mais ou menos esta dificuldade, algumas vão conseguido, apesar de tudo, cumprir, outras já não conseguem porque as dificuldades são muitíssimas e com a pandemia, com a necessidade de ficar em casa as equipas dos museus que já eram reduzidas, ficaram então muito muito em grandes dificuldades”.

“O caso de Évora é um dos casos mais dramáticos, mas que não é de hoje”

Mas a grande preocupação “não é garantir o dia de hoje, todos nós sabemos que as equipas fazem questão de abrir hoje, por exemplo Évora vai abrir 2 horas, das 6 ás 8, porque não tem condições para mais que isso, mas hoje as pessoas as pessoas vão estar lá e vão conseguir assegurar”, alertando mais uma vez para “o caso de Évora é um dos casos mais dramáticos, mas que não é de hoje, é uma história que vem de traz e que se agrava agora, porque há pessoas que fazem daqueles grupos que há pouco mencionei.”

“Quando chegar o tempo de férias, vai ser dramático

Maria de Jesus Monge conclui referindo mais uma vez que a preocupação “é para o que vem a seguir, porque se para o dia da festa nós conseguimos todos estar presentes e garantir as condições, agora nos tempos que se seguem, sobretudo quando chegar o tempo de férias, vai ser dramático”.

O mais visto