Uma ameaça à segurança rodoviária

O artigo publicado no JN, na última segunda-feira, dia 26 de agosto, aborda um assunto que não é novo e sobre o qual já tive a oportunidade de escrever, pelo que faz todo o sentido relembrar este problema do ponto de vista da segurança rodoviária.

O artigo referido tem o título “Praga de javalis causa centenas de acidentes e milhões de prejuízos” e refere que “nas estradas, a GNR registou, entre janeiro e julho, 325 acidentes de viação que envolveram javalis, dos quais resultaram um ferido grave e 14 feridos leves”.

Mas este problema não é novo, sendo conhecido que os javalis se tornaram um perigo para a segurança rodoviária desde 2013, altura em que tivemos oportunidade de abordar o assunto dos acidentes rodoviários provocados por animais, que teve por base o estudo denominado “Acidentes rodoviários com animais: Análise aos acidentes ocorridos em 2013 na área da GNR” publicado em 2014, na edição nº 45 da Revista “Parques e Vida Selvagem”, tendo já nessa altura sido concluído que o javali era de entre os animais silvestres aquele que mais acidentes provocava.

No entanto só em 2017 é que o assunto começou a ser noticia nos órgãos de comunicação social, tendo o I, em julho de 2017, abordado o assunto no artigo “Praga? Javalis assustam populações de norte a sul de Portugal”, onde era dado destaque ao problema que os javalis constituem para a segurança rodoviária, assunto que já tinha sido divulgado pela LUSA em junho desse ano, no artigo “Praga de javalis em Portugal. Caçadores e veterinários alertam para acidentes e doenças”.

No artigo de há dois anos, o I dava conta do aumento das populações de javalis em todo o território nacional tendo como consequência a destruição de propriedade privada, sejam culturas agrícolas ou jardins, provocando ainda danos em viaturas, devido às colisões com estes animais, tendo um condutor residente no concelho de Arraiolos, distrito de Évora, referido que colidiu com um grupo de javalis, despistando-se de seguida, e apesar de não ter sofrido ferimentos, ficou com a sua viatura danificada, verificando-se que os acidentes provocados por javalis ocorrem um pouco por todo o lado.

Na sequência ou não dessas noticias, foi aprovado o Projeto-Resolução n.º 1238/XIII/3ª, pela Assembleia da Republica, no dia 19 de janeiro de 2018, que recomendava na altura ao Governo que procedesse a um estudo de impacto do atropelamento de animais no ecossistema e adotasse medidas preventivas de acordo com os resultados, conforme deu conta a LUSA no artigo “Parlamento aprova resoluções para combater atropelamento de animais”, parecendo no entanto não ter conseguido alterar o panorama, desconhecendo-se ainda se o estudo referido tenha sequer sido iniciado.

Por isso e na esperança que o tal estudo seja iniciado rapidamente, propomos como base de trabalho a leitura do estudo realizado pela GNR em 2014, onde foram analisados 1.799 sinistros rodoviários provocados por animais, em 2013, na sua área de responsabilidade, dos quais resultaram avultados danos materiais nas respectivas viaturas, 77 feridos leves, 3 feridos graves e felizmente nenhuma vítima mortal, para além da morte de cerca de 2.000 animais domésticos e silvestres, sendo que cerca de metade dos animais mortos foram cães, onde também os animais silvestres se encontram em grande número, na sua maioria javalis, raposas e veados.

Da análise aos dados verifica-se que o javali foi o animal silvestre que provocou os acidentes de maior gravidade, de onde quase sempre resultam feridos, sendo os distritos de Setúbal, Castelo Branco e Évora, os distritos com maior probabilidade de se encontrarem javalis na estrada, com mais de metade do total dos acidentes provocados por javalis.

O estudo concluiu ainda que a maior probabilidade de ocorrerem acidentes com animais é no período entre as 18h00 e as 24h00, onde ocorrem quase metade dos acidentes, sendo nas estradas nacionais e os itinerários principais onde ocorrem dois terços dos acidentes provocados por animais.

Também se concluiu que o mês de janeiro foi o que registou maior número de acidentes, mas a diferença não é significativa para os restantes meses, verificando-se o mesmo com os dias da semana, sendo a 6ª-feira o dia com mais acidentes.

Apesar dos proprietários de animais domésticos que os deixem vaguear pela rede viária fazendo perigar o trânsito poderem ser responsabilizados e punidos, no caso dos animais silvestres, como o javali, não existe qualquer sanção, em virtude dos animais não serem propriedade de ninguém, com a agravante do fundo de garantia automóvel só poder ser acionado, para acidentes causados por veículos terrestres a motor e seus reboques, com estacionamento habitual em Portugal.

Mas, provavelmente os javalis, apesar de serem uma ameaça à segurança rodoviária, não serão a principal responsável pelo pior registo nos últimos anos, no que diz ao número de mortos na estrada, conforme deu conta ontem, dia 27 de agosto, a TSF na peça “Mortos na estrada subiram muito mais do que foi inicialmente revelado”, onde é referido que “aquelas que são as contas finais da sinistralidade rodoviária, em 2018 morreram 675 pessoas, mais 73 que em 2017, um aumento de 12,1% – o maior dos últimos oito anos”.

No entanto, não podemos passar a oportunidade, sem deixar alguns conselhos, com o intuito de contribuir para a redução da sinistralidade rodoviária, tendo em conta que a probabilidade de encontrar um javali na estrada é cada vez maior, pelo que quando se deparar com um javali ou qualquer outro animal na estrada, deve em primeiro lugar evitar buzinar ou fazer sinais de luzes, porque ou o assustam ou o encadeiam e fazer desvios bruscos (guinadas) que podem fazer com que a viatura se despiste.

Deve sim reduzir a velocidade gradualmente até que possa contornar o animal em segurança e se não puder evitar o choque, no momento do embate não trave nem se desvie, já que com a travagem, a frente do carro baixa e se for um animal de grande porte pode ser projetado para o vidro para-brisas.

E sempre que avistar um animal na estrada deve imediatamente comunicar esse facto à GNR, mesmo que o animal se encontre à beira da estrada, para que seja recolhido, devendo ter igual procedimento sempre que encontre um animal morto na estrada, para que seja retirado da mesma.

Pelo atrás referido, somos da opinião que o estudo elaborado pela GNR em 2014 sobre acidentes rodoviários provocados por animais poderia ser atualizado e servir de base ao estudo recomendado pela Assembleia da Republica ao Governo em janeiro de 2018, para que rapidamente se adotem medidas preventivas e dessa forma os javalis deixem de ser uma ameaça à segurança rodoviária, devendo entretanto, todos os condutores circularem com precaução redobrada, reduzindo a velocidade, nos locais e nos períodos atrás indicados, e que apresentam maior probabilidade de encontrarem um javali na estrada.