A reunião decorreu em Lisboa, nas instalações da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), mas o tema que levou Nuno Vilaranda até ao encontro com o Inspetor-Geral, o Juiz Desembargador Pedro Figueiredo, atravessa instituições, territórios e décadas. O suicídio nas forças de segurança em Portugal é o centro da investigação que o militar da GNR e doutorando em Sociologia da Universidade de Évora está a desenvolver e que pretende transformar num retrato sociológico sustentado em dados científicos.
Ao Jornal ODigital.pt, Nuno Vilaranda explicou que o encontro teve como principal objetivo apresentar formalmente o projeto de investigação e procurar apoio institucional para um trabalho que considera necessário desenvolver “com responsabilidade pública”.
«Desde há muito tempo que me inquietava a problemática do suicídio nas forças de segurança», afirmou.
A investigação, intitulada «(In)visibilidades do Suicídio nas Forças de Segurança em Portugal: Um Retrato Sociológico», está a ser desenvolvida no âmbito do doutoramento em Sociologia e conta com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).
Segundo explicou, foi o único militar ou agente das forças de segurança a conseguir obter esta bolsa de investigação.
«Candidatei-me a esta bolsa de doutoramento com o tema da invisibilidade do suicídio nas forças de segurança em Portugal», referiu, acrescentando que o projeto é desenvolvido com acolhimento institucional da Universidade de Évora, através do Instituto de Investigação e Formação Avançada e do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, contando ainda com colaboração da Guarda Nacional Republicana.
A orientação científica está a cargo da professora doutora Rosalina Costa e do tenente-coronel José Emanuel Cardoso, responsável pela Unidade de Saúde e diretor do Departamento de Psicologia da GNR.
Uma realidade “quase o dobro da população em geral”
Ao longo da conversa com ODigital.pt, Nuno Vilaranda insistiu na necessidade de olhar para o fenómeno sem estigmas, mas também sem simplificações.
«O suicídio nas forças de segurança em Portugal é quase o dobro da população em geral», afirmou.
O investigador sublinha que o fenómeno exige uma abordagem científica rigorosa, sobretudo pela sensibilidade associada ao tema e pelo impacto social que envolve.
«Estamos a falar de homens e mulheres que servem o Estado, que protegem os cidadãos e que muitas das vezes carregam em silêncio pressões muito profundas.»
Para Nuno Vilaranda, existe uma responsabilidade coletiva em olhar para esta realidade “sem preconceitos, sem estigmas e sem indiferença”.
Ainda assim, reconhece que continua a existir dificuldade em abordar publicamente o tema.
«Quando se fala do suicídio, tem que ser sempre com uma base científica e com evidências», defendeu.
O doutorando alertou também para o cuidado que deve existir na comunicação social e na divulgação pública destes casos, defendendo uma abordagem alinhada com as normas europeias e com critérios de responsabilidade.
«Os órgãos de comunicação social têm muita responsabilidade naquilo que diz respeito à publicidade do suicídio», afirmou.
IGAI associa-se ao projeto de investigação
Segundo relatou ao Jornal ODigital.pt, a reação da Inspeção-Geral da Administração Interna foi um dos aspetos que mais o marcou durante o encontro.
«A IGAI, desde o primeiro momento, transmitiu-me logo que se associava a este projeto», disse.
Nuno Vilaranda descreve a reunião como “muito importante” e refere que encontrou abertura institucional para acompanhar o desenvolvimento da investigação.
«O combate ao suicídio nas forças de segurança é também uma preocupação e um objetivo da própria Inspeção-Geral da Administração Interna.»
De acordo com o investigador, o Inspetor-Geral demonstrou disponibilidade para colaborar no acesso a dados estatísticos e institucionais considerados relevantes para o trabalho científico.
A recolha de informação constitui uma das principais etapas do estudo, que combina metodologias quantitativas e qualitativas.
«É importante que as instituições também possam fornecer dados qualificados para estas investigações científicas», explicou.
O investigador considera que a produção de conhecimento científico poderá mais tarde contribuir para medidas concretas de prevenção.
«Estas investigações irão traduzir-se, garantidamente, ou assumidamente, em medidas que poderão ajudar a combater o flagelo do suicídio nas forças de segurança.»
Mapear os suicídios desde o ano 2000
A investigação encontra-se ainda numa fase inicial, mas o trabalho de recolha e análise já começou.
Nuno Vilaranda revelou ao ODigital.pt que está neste momento a “monitorizar e mapear todos os suicídios” ocorridos nas forças de segurança portuguesas desde o ano 2000 até à atualidade.
O objetivo passa por construir uma base de dados sólida e sustentada em fontes oficiais.
«Tenciono fazer um levantamento de dados que seja credível com fontes credíveis», afirmou.
O apoio da PSP, da GNR, da IGAI e do Ministério da Administração Interna é apontado como determinante para o avanço do projeto.
Além da futura tese de doutoramento, o investigador pretende publicar artigos científicos ao longo do percurso académico.
«Acredito que uma ciência aberta é uma ciência que pode beneficiar todo o coletivo, sobretudo a sociedade e as nossas instituições.»
“Temos que tornar a sociedade mais saudável”
No final da entrevista, Nuno Vilaranda deixou uma reflexão mais ampla sobre a dimensão social do fenómeno.
Recordando dados da Organização Mundial da Saúde, referiu que o suicídio continua a representar uma realidade global preocupante.
«Segundo a Organização Mundial de Saúde, ocorrem entre 700 mil e 800 mil suicídios todos os anos no mundo.»
Apesar do foco da investigação estar centrado nas forças de segurança, o investigador sublinha que o problema ultrapassa o contexto institucional.
«Temos que continuar a investigar o fenómeno a fundo, mergulhar de forma muito profunda no fenómeno, para que consigamos encontrar medidas de prevenção que sejam efetivamente úteis para a sociedade.»
A terminar, deixou uma ideia que considera central para o trabalho que pretende desenvolver nos próximos anos.
«Temos que tornar a nossa sociedade uma sociedade mais saudável e a ciência tenta dar o seu contributo. E eu, enquanto investigador e doutorando da Universidade de Évora, quero dar esse contributo.»















