Ver Viídeo
O comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Viçosa, Nuno Pinheiro, considera que os bombeiros continuam a ser um dos pilares do sistema de proteção civil em Portugal, mas alerta para desafios relacionados com a emergência médica, o combate aos incêndios rurais, a falta de voluntários e a necessidade de reorganização de alguns modelos de resposta operacional.
As declarações foram feitas durante uma entrevista ao podcast «Factos e Conversas», do Jornal ODigital.pt, onde o responsável traçou um retrato da realidade vivida pelos bombeiros, numa altura em que já decorre a Fase Charlie do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais.
«Os bombeiros são os mais próximos da população»
Ao longo da conversa, Nuno Pinheiro destacou o papel desempenhado diariamente pelas corporações de bombeiros, sublinhando que a sua missão vai muito além dos incêndios.
«Mais de 90% das ocorrências de socorro em Portugal são feitas pelos bombeiros. Somos os mais próximos da população e da comunidade, sempre para ajudar e socorrer», afirmou.
O comandante lembrou que os bombeiros respondem diariamente a emergências médicas, acidentes rodoviários, incêndios urbanos e rurais, salvamentos e inúmeras situações de apoio à população.
Segundo explicou, essa proximidade torna-se particularmente evidente no transporte de doentes, onde os operacionais acabam muitas vezes por desempenhar também uma função social.
«O bombeiro é um cuidador, um acompanhante e muitas vezes uma companhia. Estamos próximos das pessoas, sabemos como vivem e, quando identificamos dificuldades, alertamos as entidades competentes para poder ajudar», referiu.
Preocupação com a emergência médica
Um dos temas centrais da entrevista foi a articulação entre bombeiros e sistema de emergência médica.
Nuno Pinheiro reconheceu a importância dos meios diferenciados, mas defendeu uma reorganização que permita uma maior eficácia na utilização dos recursos disponíveis.
«O que queremos é dar mais eficácia ao socorro. Quando os meios fazem falta, têm de estar onde fazem falta», afirmou.
O comandante apontou ainda situações em que diferentes meios são mobilizados para a mesma ocorrência, defendendo uma gestão mais eficiente dos recursos operacionais.
Incêndios rurais continuam a exigir resposta rápida
Com a época mais crítica de incêndios já em curso, o comandante dos Bombeiros de Vila Viçosa destacou a importância do ataque inicial aos fogos.
«Chegou-se ao ponto de perceber que deixámos de fazer incêndios grandes. Temos de os apagar quando são pequenos», afirmou.
Para responder às exigências da fase mais crítica do verão, a corporação dispõe de equipas permanentes e de vários veículos de combate a incêndios, integrando igualmente o sistema de triangulação que permite o reforço imediato por corporações vizinhas sempre que surge uma ignição.
Apesar disso, Nuno Pinheiro voltou a alertar para problemas nas comunicações em algumas zonas do concelho.
Falhas do SIRESP continuam a preocupar
A zona oeste do concelho de Vila Viçosa continua a ser uma das principais preocupações do comandante devido às dificuldades de cobertura da rede SIRESP.
«Continuamos com a mesma dificuldade. Todos os anos reiteramos junto das entidades que a zona oeste do nosso concelho tem muitos pontos negros e dificuldades de comunicação», afirmou.
Segundo recordou, as falhas de comunicações já tiveram impacto operacional em incêndios registados no passado na região.
«Se tivéssemos tido as comunicações necessárias, alguns meios teriam sido colocados noutras posições e o incêndio poderia ter tido uma evolução diferente», sustentou.
Falta de voluntários é um desafio nacional
Outro dos temas abordados foi a dificuldade crescente em recrutar novos elementos para os corpos de bombeiros.
Para Nuno Pinheiro, a atividade exige dedicação e espírito de missão.
«Para ser bombeiro tem de se gostar de ser bombeiro. Tem de haver paixão e gosto por aquilo que se faz», afirmou.
Apesar das dificuldades, o comandante considera que os Bombeiros Voluntários de Vila Viçosa continuam a conseguir renovar os seus quadros, em muitos casos através da continuidade familiar.
«Temos muitos casos em que os filhos seguem os passos dos pais e até dos avós. Os bombeiros são uma família», disse.
O futuro passa por profissionalismo sem perder o voluntariado
Questionado sobre o futuro da corporação e dos bombeiros em Portugal, Nuno Pinheiro defendeu um equilíbrio entre a profissionalização e a preservação do espírito voluntário.
«Tem de haver profissionalismo, mas não podemos perder o voluntariado. Se um dia perdermos o voluntariado, todos vamos perder quando precisarmos dos bombeiros», alertou.
O comandante acredita que os próximos anos poderão trazer mudanças na organização do sistema de proteção civil e do combate aos incêndios, mas considera que a essência da missão dos bombeiros permanecerá a mesma.
«O incêndio daqui a dez anos será igual e da mesma cor. O mais importante é continuarmos a ter pessoas preparadas, disponíveis e com vontade de ajudar a população», concluiu.
A entrevista completa com o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Viçosa, Nuno Pinheiro, pode ser acompanhada no mais recente episódio do podcast «Factos e Conversas», disponível nas plataformas digitais do Jornal ODigital.pt.















