Num terreno em Foros de Vale de Figueira, no concelho de Montemor-o-Novo, há crianças a pintar pedras, a brincar na lama, a pescar objetos improvisados e a explorar o campo sem grandes regras. Ao lado delas, os pais são convidados a fazer o mesmo: parar, desligar da rotina e voltar a brincar “como antigamente”.
O espaço chama-se “Pequeno Bosque” e nasceu em março deste ano pela mão de duas famílias da região que decidiram criar um projeto pensado para bebés, crianças e adultos, sempre ao ar livre e em contacto com a natureza.
“É brincar como antigamente e explorar a natureza de forma livre”, resume Tainara Nogueira, responsável pelo projeto, em delcarações ao jornal ODigital.pt.
A ideia surgiu a partir da própria experiência familiar. Tainara, o marido, a prima e o companheiro da prima — todos com filhos pequenos — começaram a perceber a dificuldade em encontrar espaços onde as crianças pudessem explorar livremente sem a constante preocupação dos adultos.
“Faz falta também aos pais um espaço em que podem ir e deixar as crianças serem livres e explorarem livremente, sujarem-se e brincarem como antigamente”, explica.
Um espaço onde a criança “manda”
Ao contrário de atividades estruturadas ou guiadas, no Pequeno Bosque as sessões são preparadas previamente, mas o percurso é definido pelas próprias crianças.
O espaço é dividido em várias estações com atividades ligadas à natureza, como pintura suspensa, cozinhas de lama ou jogos de pesca improvisados com elementos naturais. Depois, as famílias são incentivadas a deixar que os mais novos escolham o que querem explorar.
“Nós indicamos sempre aos adultos a nossa sugestão, que é deixem as crianças guiarem a exploração”, refere Tainara.
A responsável admite mesmo que, naquele espaço, “quem manda” são as crianças.
Mais do que uma atividade infantil, o projeto pretende criar momentos de presença entre adultos e crianças, numa altura em que muitas famílias vivem entre horários apertados, rotinas aceleradas e distrações digitais.
“Fazia falta também as crianças sentirem os pais realmente ali presentes”, afirma.
“Os pais às vezes não conseguem desligar”
Ao longo das primeiras sessões, uma das conclusões da equipa foi precisamente a dificuldade que muitos adultos têm em entrar verdadeiramente na experiência.
“As crianças vão sempre adorar, saem sempre felizes. Os pais às vezes podem ficar um bocadinho entediados porque acabam por não entender que podem participar também”, diz Tainara.
A responsável considera que muitos adultos chegam ao espaço ainda presos à rotina diária e acabam por não conseguir desligar completamente.
“Não conseguem desligar e acabam por não aproveitar como poderiam”, admite.
Ainda assim, garante que há famílias que aderem imediatamente ao conceito e entram nas brincadeiras juntamente com os filhos.
“Queremos ver também os pais a jogarem ali, a pintarem, a explorarem”, acrescenta.
Um conceito ainda pouco comum no interior
O Pequeno Bosque começou atividade a 15 de março e, apesar de recente, já recebeu visitantes de vários pontos do país. Segundo Tainara Nogueira, a maior adesão tem vindo sobretudo de casais na faixa dos 30 anos e de famílias que valorizam atividades ligadas à natureza e ao brincar livre.
A responsável reconhece, no entanto, que o conceito ainda causa alguma estranheza, sobretudo a nível local.
“Na nossa zona não há nada do género e estamos a abrir um caminho novo”, afirma.
Segundo explica, o projeto tem recebido mais validação de visitantes vindos de fora da região do que da população local, precisamente por se tratar de um modelo pouco habitual no interior do país.
Entre o vento, a chuva e o calor alentejano
Sendo um projeto totalmente ao ar livre, os desafios também dependem do clima.
A equipa já teve de cancelar atividades devido ao vento forte e admite que a meteorologia é atualmente a principal limitação do espaço.
“Estamos completamente dependentes da previsão do tempo”, refere Tainara.
Nos meses mais quentes, o Pequeno Bosque pretende adaptar as atividades ao calor alentejano, apostando em experiências ligadas à água.
Apesar das dificuldades, a responsável diz que o objetivo passa por continuar a desenvolver um espaço onde famílias possam encontrar tempo para desacelerar e recuperar experiências simples em contacto com a natureza.
“O próprio caminho já é quase o destino”, descreve Tainara sobre a chegada a Foros de Vale de Figueira.















