O escritor Francisco Moita Flores afirmou este fim de semana que Vila Viçosa e Évora ocupam um lugar especial na sua memória pessoal e literária, durante a participação na primeira edição do Comboio Literário, iniciativa promovida pela LeYa e pela CP – Comboios de Portugal.
Em declarações ao jornal ODigital.pt, o autor descreveu a passagem pelo Alentejo como um momento emocionalmente marcante.
«Vir até Évora é vir até ao meu coração também, porque eu sou alentejano e tenho uma relação com Évora muito antiga», afirmou.
Já em Vila Viçosa, Francisco Moita Flores recordou as primeiras visitas feitas ainda em criança à vila alentejana.
«Foi a minha primeira viagem de puto na quarta classe. Viemos aqui à festa de Nossa Senhora da Conceição», referiu.
O escritor revelou ainda que Vila Viçosa serviu de inspiração para o romance “O Dia dos Milagres”.
«Esta terra esteve durante quase dois anos da minha vida muito presente quando escrevi “O Dia dos Milagres” e tenho esta terra muito impregnada no coração», afirmou.
“Um reencontro entre escritores e leitores”
Francisco Moita Flores destacou também o ambiente vivido dentro do Comboio Literário, que reuniu cerca de 170 participantes entre leitores, escritores, livreiros e editores.
«Foi uma surpresa, uma coisa muito interessante que não esperava acontecer, este reencontro de livreiros, de editores, escritores e público leitor», disse.
O autor sublinhou a proximidade criada entre os participantes durante a viagem.
«Nós estamos habituados a fazer autógrafos, mas há sempre um silêncio nessa relação. Aqui não. Aqui está toda a gente a falar», referiu.
Segundo o escritor, a relação construída ao longo de décadas com os leitores tornou-se particularmente evidente durante a iniciativa.
«Há aqui uma relação de cumplicidade muito forte, muito intensa», afirmou.
O romance histórico entre memória e ficção
Durante uma sessão em Vila Viçosa, Francisco Moita Flores abordou também a relação entre literatura e história, defendendo que o romance histórico cruza necessariamente memória, interpretação e ficção.
O escritor recordou uma carta de Eça de Queiroz a Oliveira Martins sobre a descrição da Batalha de Ourique na “História de Portugal”, utilizando o exemplo para refletir sobre os limites entre narrativa histórica e imaginação literária.
«A história, na sua forma mais sublime, aproxima-se da literatura», afirmou.
Moita Flores considerou que o romancista histórico precisa de respeitar os factos, mas também de interpretar mentalidades, emoções e contextos sociais de cada época.
«As mentalidades são decisivas para escrever sobre o percurso histórico», referiu.
Lisboa, memória e personagens
O escritor revelou ainda que o novo romance, “Sangue e Silêncio no Poço dos Negros”, decorre em 1969, período marcado por acontecimentos como a chegada do homem à Lua, a vitória de Simone de Oliveira no Festival da Canção com “Desfolhada” e o fim do regime liderado por António de Oliveira Salazar.
Segundo Francisco Moita Flores, Lisboa continua a ser um dos principais cenários da sua escrita.
«Tenho uma paixão muito especial por Lisboa e devo ser o autor que mais escreveu sobre Lisboa», afirmou.
Durante a conversa com o público, o escritor falou também sobre a relação emocional criada com algumas personagens das suas obras, recordando a dificuldade que sentiu ao escrever a morte de D. Antónia Ferreira no romance “A Fúria das Vinhas”.
“Quem me lê tem que me entender”
Questionado sobre a linguagem utilizada nos romances históricos, Francisco Moita Flores defendeu que a escrita deve manter rigor sem perder clareza para o leitor contemporâneo.
«Quem me lê tem que me entender», afirmou.
O escritor explicou que procura evitar quer o excesso de linguagem arcaica, quer expressões demasiado atuais, apostando numa escrita acessível e coerente com cada época retratada.















