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Repsol fabrica 158 mil toneladas de combustíveis renováveis e defende apoio institucional

A primeira fábrica na Península Ibérica dedicada exclusivamente à produção de combustíveis 100% renováveis produziu 158 mil toneladas em sete meses de funcionamento, segundo a Repsol, que pede “apoio institucional” para a criação de cadeias de abastecimento de matérias-primas.

Metade da matéria-prima usada na fábrica da Repsol de Cartagena, no sul de Espanha, para produzir biocombustíveis é importada de fora da Península Ibérica, segundo a empresa.

Os biocombustíveis líquidos estão a ser produzidos com resíduos orgânicos, a maioria óleos alimentares, que constituem 80% da matéria-prima atual na fábrica de Cartagena, segundo Antonio Mestre, diretor do complexo industrial. Os restantes 20% são outros resíduos alimentares.

São matérias-primas “que não competem com as cadeias alimentares”, realçou Antonio Mestre, em declarações a um grupo de jornalistas durante uma visita em novembro ao complexo industrial de Cartagena da Repsol.

Apesar da necessidade de importação de metade da matéria-prima desde fora da Península Ibérica, incluindo desde fora do continente europeu, o que obriga ao transporte de longa distância, segundo os dados da Repsol, os combustíveis 100% renováveis produzidos em Cartagena reduzem em até 90% as emissões poluentes (de dióxido de carbono) “em todo o ciclo de vida”, comparando com os combustíveis líquidos tradicionais, derivados do petróleo.

A fábrica de Cartagena da Repsol, que resultou de um investimento de 250 milhões de euros, começou a funcionar em abril deste ano e tem capacidade para processar 300 mil toneladas de resíduos orgânicos anualmente para produzir 250 mil toneladas de combustíveis 100% renováveis. O desafio agora é criar redes de abastecimento locais.

“Estruturalmente a percentagem [de matéria-prima local] irá aumentando, à medida que crescerem as novas cadeias de valor para a gestão de mais tipos de resíduos localmente”, afirmou a Repsol, em resposta a perguntas da agência Lusa.

A empresa disse estar “a trabalhar ao máximo para construir novas cadeias de abastecimento que permitirão dar uma segunda vida aos resíduos gerados localmente, criando, além disso, atividade económica em regiões rurais e aumentando a independência energética” da Península Ibérica.

Foi com este objetivo que avançou recentemente, por exemplo, com a recolha de óleos alimentares domésticos usados em estações de serviço em Espanha. Segundo dados de diversas entidades, só entre 4% e 5% destes resíduos gerados nas casas espanholas são reciclados atualmente. No caso da hotelaria e restauração, a percentagem de reciclagem em Espanha era de 75% antes da pandemia (cerca de 115 mil toneladas anuais), segundo a Associação Nacional de Gestores de Resíduos e Subprodutos de Óleos e Gorduras Comestíveis (Geregras).

Sempre com o objetivo de garantir o abastecimento de matérias-primas para produzir biocombustíveis, a Repsol assinou também um acordo com a Bunge Ibérica, empresa que se apresenta como “líder mundial no processamento de oleaginosas e um produtor e fornecedor líder em óleos, gorduras e proteínas especiais de origem vegetal”.

Através deste acordo, a Repsol adquiriu 40% de três instalações industriais da Bunge em Espanha dedicadas à produção de óleos e biocombustíveis.

No entanto, para conseguir um “abastecimento estável e acessível de matéria-prima para uma produção crescente” de biocombustíveis, a Repsol disse à Lusa ser necessário “apoio institucional e regulatório com uma visão holística para desenvolver e aumentar toda a cadeia de valor dos combustíveis renováveis da maneira mais rápida possível”, lembrando que este aspeto é uma das conclusões do recente “relatório Draghi”, sobre a competitividade da União Europeia.

A Repsol tem atualmente uma capacidade de produção de combustíveis renováveis de 1,1 milhões de toneladas anuais, instaladas nos seis complexos industriais que possui na Península Ibérica. Um desses complexos está em Portugal, em Sines.

Na fábrica de Cartagena, a única até agora com uma unidade de produção em grande escala e exclusiva deste tipo de combustíveis (diesel renovável para automóveis e SAF, usado na aviação), a capacidade de produção é de 250 mil toneladas anuais, tendo nos primeiros sete meses de funcionamento (abril a novembro deste ano) alcançado cerca de 158 mil toneladas, segundo a empresa.

Nas restantes refinarias, os biocombustíveis são produzidos em “coprocessamento” com outros tipos de combustíveis.

“A percentagem dedicada à produção de combustíveis 100% renováveis continuará a aumentar à medida que entrarem em operação outras fábricas”, sendo a seguinte a de Puertollano, também em Espanha, no final de 2025, segundo a empresa.

A Repsol tem ainda um projeto de produção de combustíveis sintéticos (conhecidos como ‘e-fuels’), mas a tecnologia é ainda emergente e a empresa estima que não chegará à fase de produção “à escala industrial” antes de 2030.

Assim, e até lá, a previsão é que a maior parte dos combustíveis renováveis produzidos pela empresa continuem a ser biocombustíveis, como os que produz em Cartagena. Os objetivos são passar dos 1,1 milhões de toneladas por ano atuais para uma capacidade de produção de entre 2,4 e 2,7 milhões de toneladas em 2030.

A Repsol vende atualmente diesel 100% renovável em 600 estações de serviço de Portugal e Espanha e prevê chegar às 1.500 (cerca de metade de todas as que possui) em 2025, naquela que será “a maior rede de abastecimento deste combustível na Europa”.

No âmbito da transição energética, a Repsol apostou nestes combustíveis, realçando a vantagem de poderem ser usados nos automóveis atuais, sem necessidade de adaptação dos veículos e motores e com a possibilidade de serem misturados com os de origem fóssil.

Para a Repsol, os combustíveis renováveis não são a única solução para a descarbonização do setor dos transportes, são uma delas, neste caso, “já disponível” e complementar de outras em que estão a apostar diversas empresas, como a eletrificação ou o hidrogénio verde.

A empresa cita um estudo do Imperial College de Londres para sublinhar que “a disponibilidade total potencial de biomassa sustentável (agricultura, silvicultura e biorresíduos) na União Europeia é mais do que suficiente para abastecer matéria-prima para combustíveis líquidos de origem biológica destinados à aviação, navegação marítima e uma parte do transporte por estrada”.

A Repsol assinou já “acordos de colaboração e venda” com várias empresas de transporte, tanto terrestre, como marítimo ou aéreo.

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