A presidente da Associação Académica da Universidade de Évora (AAUE), Ana Beatriz Calado, aproveitou a cerimónia de tomada de posse do novo reitor, António Candeias, para fazer um discurso marcado por referências políticas ao futuro do ensino superior, às desigualdades territoriais e ao papel estratégico da Universidade de Évora no desenvolvimento do Alentejo.
Perante representantes institucionais, autarcas, responsáveis académicos e estudantes, a dirigente estudantil defendeu uma universidade “capaz de liderar o futuro” e alertou para os riscos de um modelo de ensino superior que continua a reproduzir desequilíbrios entre litoral e interior.
«Não podemos continuar a aceitar um modelo de Ensino Superior que reproduz desigualdades territoriais», afirmou Ana Beatriz Calado, acrescentando que estudar no interior «não pode significar ter menos acesso a financiamento, menos infraestruturas, menos transportes ou menos oportunidades».
Num discurso longo, com forte componente política e institucional, a presidente da AAUE sublinhou que a Universidade de Évora não pode ser encarada apenas como uma estrutura académica, mas como um elemento central para a coesão territorial e para o desenvolvimento do país.
«O interior não é um problema, é uma oportunidade estratégica, e a Universidade de Évora é uma das suas maiores âncoras», declarou.
“O tempo em que vivemos não permite hesitações”
Ao longo da intervenção, Ana Beatriz Calado insistiu na necessidade de acelerar processos de modernização e de adaptação às transformações tecnológicas, científicas e sociais que afetam o ensino superior.
«Temos de colocar o ritmo no modo prestíssimo», afirmou, defendendo instituições «capazes de acompanhar» as mudanças trazidas pela transformação digital, pela globalização do conhecimento e pelas novas exigências do mercado de trabalho.
Para a dirigente académica, as universidades não podem limitar-se à gestão corrente. «Exige universidades que não tenham medo de mudar e lideranças que não se limitem a gerir o presente, mas que tenham a coragem de projetar o futuro», sustentou.
A intervenção incluiu também referências às dificuldades estruturais da Universidade de Évora, nomeadamente ao nível das infraestruturas e da sustentabilidade financeira.
Ana Beatriz Calado lembrou que a instituição possui 38 edifícios e enfrenta desafios “financeiros, energéticos e logísticos” que exigem respostas estruturadas e visão de longo prazo. «Não podemos governar instituições a quatro anos, temos de as projetar a vinte», afirmou.
Críticas ao subfinanciamento e à crise no alojamento
O financiamento do ensino superior e as dificuldades vividas pelos estudantes foram outro dos eixos centrais do discurso.
A presidente da AAUE alertou para o impacto do subfinanciamento estrutural, da crise no alojamento estudantil e das dificuldades na ação social académica. «Estes não são problemas técnicos, são problemas políticos que exigem respostas políticas», afirmou.
Ana Beatriz Calado defendeu políticas públicas mais ambiciosas para o interior do país e criticou a incapacidade de fixar jovens qualificados na região.
«Não podemos continuar a formar jovens para depois os ver partir, não porque querem, mas porque não encontram condições para ficar», declarou.
Segundo a dirigente estudantil, o desenvolvimento nacional não pode continuar concentrado nos grandes centros urbanos. «O futuro de Portugal não se constrói apenas nas grandes cidades, constrói-se também aqui», afirmou.
Reconhecimento à reitora cessante
Uma parte significativa da intervenção foi dedicada ao reconhecimento da equipa reitoral cessante, em particular da antiga reitora Hermínia Vasconcelos Vilar, da administradora Cristina Centeno e do vice-reitor João Nabais.
Sobre Hermínia Vilar, Ana Beatriz Calado afirmou que a antiga reitora marcou a academia “pela forma como exerceu o cargo”. «Num sistema muitas vezes formal trouxe empatia», declarou.
A dirigente estudantil destacou também a importância do diálogo institucional mantido nos últimos anos entre a reitoria e os estudantes, considerando que essa proximidade teve impacto no funcionamento da academia.
Exigência e compromisso com a nova reitoria
Na parte final do discurso, Ana Beatriz Calado dirigiu-se diretamente ao novo reitor António Candeias, deixando uma mensagem de disponibilidade para colaborar, mas também de exigência política e institucional.
«Da nossa parte haverá exigência, mas também compromisso», afirmou, garantindo que os estudantes estarão presentes «para ajudar, para questionar e para construir».
A presidente da Associação Académica concluiu defendendo uma Universidade de Évora «mais forte, mais justa e mais influente», reforçando que o envolvimento estudantil continuará a ser um elemento central na vida da instituição.















