A um ano do arranque oficial de Évora como Capital Europeia da Cultura em 2027, Maria do Céu Ramos, presidente da Associação Évora_27, considera que a cidade está a entrar numa nova etapa do processo: A fase em que o projeto começa a ser visível para a população.
Em entrevista ao jornal ODigital.pt, a presidente sublinha que o dia 6 de fevereiro de 2027 continua a ser a referência central, por se tratar da data assumida junto da Comissão Europeia para a “abertura oficial”. No entanto, o dia 6 de fevereiro de 2026 marca o “início” de um ciclo, com programaçaõ concreta e uma “maior proximidade” com a comunidade.
Durantes estes próximos meses, a associação pretende consolidar este “novo ciclo que se abre na construção de Évora Capital Europeia da Cultura”, dando palco ao “Vagar”, que Maria do Céu Ramos confessou que espera que “se vá multiplicando por vários palcos na cidade”
Um percurso com marcos decisivos
Questionada sobre os momentos-chave que consolidaram o projeto, Maria do Céu Ramos apontou o dia 7 de dezembro de 2022 como o primeiro dia desta iniciativa: “Um grande dia de festa, em que nos foi atribuido o título”.
No entanto, a presidente destacou também que o processo exigiu uma fase prolongada de estruturação institucional, essencial para criar condições para executar o projeto.
Entre os momentos decisivos, refere a constituição da Associação Évora_2027, em fevereiro de 2024, após um período de impasse, a tomada de posse da direção a 23 de outubro de 2024 e, já em abril de 2025, o reforço da equipa com a integração do diretor artístico e do diretor executivo, escolhidos por concurso internacional.
“Estes momentos podem parecer muito institucionais, e são, mas foram os momentos de referência para a consolidação do projeto, porque lhe forneceram infraestrutura organizacional”, acrescentou.
É precisamente por isso que Maria do Céu Ramos vincou que considera que esta sexta-feira terá um peso diferente, uma vez que representa um “virar de página”, na abertura de um “ciclo novo”.
“Deixa para trás a fase em que se constroem os pilares, às vezes invisíveis, desta grande construção, para começar a ser visível à superfície”, frisou.
Programação em 2026 com três momentos artísticos
Neste dia 6 de fevereiro, está prevista uma programação própria, que acompanhará as “estações do ano”. Segundo Maria do Céu Ramos, o diretor artístico John Romão irá dirigir “três momentos” distintos ao longo da Primavera, Verão e Outono, porém não revelou detalhes.
Além da programação artística, Évora acolherá em maio uma “reunião de família” internacional de Capitais Europeias da Cultura, com cerca de uma centena de pessoas de cidades que já receberam o título e de outras que o irão receber até 2030.
A associação prevê ainda uma apresentação conjunta com Liepaja, na Letónia, cidade que partilhará com Évora o título em 2027. Já em novembro deste ano, será a apresentação “detalhada” do programa artístico, “já com datas, locais e horários”.
“Vagar”: o conceito que estrutura Évora 27
O “Vagar” é o tema central da candidatura e da programação, uma escolha feita ainda no momento da submissão do projeto. Para Maria do Céu Ramos, esta decisão foi tomada porque “faz parte do modo de ser alentejano e, diria, da alma alentejana”.
A presidente da Associação Évora_27 sublinhou que o conceito não deve ser entendido como sinónimo de lentidão improdutiva, mas como o “saber dar tempo ao tempo” e a “valorização do tempo, do seu sentido nas nossas vidas individuais e nas vidas das comunidades”.
A dirigente defende ainda que esta filosofia pode funcionar como “resposta” ao “ritmo acelerado da vida contemporânea”, podendo ter impacto cultural e social.
Concerto com composições originais e cruzamentos improváveis
Uma das iniciativas de maior destaque da programação para esta sexta-feira será um concerto na Arena de Évora, às 21h, com temas inéditos criados especificamente para o projeto.
Segundo Maria do Céu Ramos, os artistas convidados foram desafiados a colocar o “Vagar” no centro das suas composições, criando letras e músicas originais.
Entre os participantes estão Buba Espinho, João Direitinho, Duarte e os Cantares de Évora, Cláudia Pascoal, Valas, Tozé Bexiga, Mafalda Veiga, Helena Caldeira, Surma e o projeto Vozes de Abril, com Luísa Sobral e Laz Hay.
Questionada sobre o conceito do espetáculo, a presidente da associação aponta a lógica dos “cruzamentos” como uma das marcas do trabalho do diretor artístico.
“O John Romão tem uma filosofia de trabalho muito inspirada nesses cruzamentos, nessas relações improváveis entre disciplinas artísticas ou entre artistas que criam coisas novas”, referiu.
Petição quer criar o Dia Nacional do Vagar
Outro momento simbólico será a apresentação de uma petição para instituir o Dia Nacional do Vagar, que será entregue com o objetivo de chegar à Assembleia da República.
Maria do Céu Ramos explicou que a ideia surgiu internamente na associação, como forma de dar dimensão prática e pedagógica ao conceito, para “valorizar o lado simbólico, pedagógico e também operacional do ‘vagar’, que nos parece merecer uma chamada de atenção”, afirmou.
A presidente destacou que tem “muita confiança” que esta petição poderá ganhar contornos nacionais e até internacionais, ligando-se a outras preocupações europeias como saúde mental, bem-estar e relação com a natureza: “Que possa sair das raízes da planície alentejana e espraiar-se”.
Um projeto “aberto e inclusivo” para a cidade
Maria do Céu Ramos afirmou que o objetivo da programação é mobilizar a cidade, abrangendo “diferentes públicos e todas as pessoas”, e incentivar a participação de diferentes sectores da comunidade: “É um programa aberto e inclusivo”.
Sobre o envolvimento dos eborenses no projeto, admite que a adesão tem o seu próprio ”tempo” e que agora é “as pessoas estão à espera do que possa acontecer” e de como se “concretiza o ‘vagar’”.
É um projeto de “todos”
A terminar, Maria do Céu Ramos deixou um apelo à participação dos cidadãos e das instituições no projeto, sublinhando que Évora 27 deve ser encarado como um projeto de “todos, coletivo e transformador”.
A presidente da Associação Évora_27 defendeu ainda que a Capital Europeia da Cultura será “um momento muito importante e de viragem” para a cidade e para o território, com impacto duradouro no pós-2027.
“Que no final seremos mais fortes, mais unidos e mais confiantes em nós próprios”, concluiu.















