O Centro de Inovação Social da Fundação Eugénio de Almeida aprovou recentemente três candidaturas a financiamento. Uma delas foi o «Jogo Un-Hu», um projeto educativo inspirado na filosofia africana Unhu/Ubuntu que procura desenvolver competências socioemocionais e de cidadania global em públicos de todas as idades.
Um jogo para todas as idades
O «Jogo Un-Hu» nasceu em 2019 pelas mãos de Rita Rosado e Paula Guerra, e desde 2023 encontra-se incubado no Centro de Inovação Social da Fundação Eugénio de Almeida. A iniciativa foi concebida como uma ferramenta pedagógica transversal, pensada para crianças, jovens, adultos e idosos.
«Costumamos dizer que é um jogo dos cinco aos 105 anos. Ele é adaptável a qualquer idade, embora seja necessário haver sempre uma formação para que possa ser aplicado», explicou Rita Rosado em declarações ao ODigital.
O jogo é composto atualmente por três baralhos de cartas: «Eu», «Eu e os Outros» e «Eu e a Comunidade». Cada um trabalha competências distintas, como o autoconhecimento, a autorregulação, a empatia, a comunicação, a resolução positiva de conflitos, o pensamento crítico, a saúde e o bem-estar. Um quarto baralho — «Eu e o Mundo» — está em desenvolvimento e terá como eixos a filosofia política, o desenvolvimento regenerativo e a cidadania.
A filosofia Ubuntu aplicada à educação
A filosofia africana Ubuntu, que inspira este projeto, parte da ideia de que «Eu sou porque tu és». Rita Rosado recorda que «só somos quem somos através da relação com os outros». Por isso, o «Jogo Un-Hu» promove uma aprendizagem em círculo, de forma participada e relacional, através de cartas de perguntas e dinâmicas de grupo.
«É um jogo que tem muitas bases científicas, desde a psicologia positiva à inteligência emocional, às inteligências múltiplas ou à comunicação não-violenta. Trabalhamos várias dimensões do ser humano, desde o lado racional ao físico e criativo», refere a responsável.
Adaptação a diferentes públicos
Embora o projeto tenha sido criado para todas as idades, a aplicação prática varia consoante o público-alvo. No caso das crianças, são escolhidas dinâmicas mais ativas e físicas, como jogos de movimento, enquanto nos idosos se privilegiam perguntas reflexivas ou exercícios mais adequados à faixa etária.
«Se trabalhamos com crianças do primeiro ciclo, selecionamos perguntas e dinâmicas específicas. Com idosos, optamos por outras, mas há também semelhanças. Por exemplo, perguntar ‘o que te faz feliz?’ ou desenvolver dinâmicas ligadas às emoções pode ser transversal», exemplificou Rita Rosado.
Expansão e impacto social
O «Jogo Un-Hu» tem sido aplicado sobretudo em contexto escolar. Psicólogos, professores e assistentes sociais têm sido formados para o implementar junto de crianças e jovens.
«Este ano vamos aplicar o projeto em 11 escolas do Alentejo Central, ao abrigo de uma candidatura aprovada pelo Portugal 2030», revelou Rita Rosado. Além disso, o jogo já está presente em algumas escolas com acompanhamento da equipa e em projetos municipais, como no caso da Câmara da Amadora.
Apesar de o foco estar no setor da educação, a equipa reconhece a pertinência da ferramenta para outros contextos, como empresas, lares ou organizações comunitárias.
Reconhecimento externo
O projeto já foi distinguido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Cátedra UNESCO para a Educação, que reconheceram a relevância pedagógica e social do «Jogo Un-Hu».
«É um jogo sobre o ser humano e sobre relações. Por isso, sentimos que ele pode chegar a todos e contribuir para trabalhar dimensões essenciais da vida em sociedade», concluiu Rita Rosado.















