Maria João Pires alertou para os riscos da crescente influência da inteligência artificial nas sociedades atuais e defendeu a necessidade de preservar a consciência humana, a liberdade de pensamento e a transmissão pedagógica.
A reflexão foi deixada durante a cerimónia em que recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade de Évora, realizada esta quarta-feira no Colégio do Espírito Santo.
Pianista alerta para riscos tecnológicos
Na intervenção, Maria João Pires considerou que o crescimento das inteligências artificiais generativas e dos interesses económicos associados está a provocar transformações profundas na sociedade.
A pianista afirmou que «essa transformação não é neutra», defendendo que o avanço tecnológico levanta questões relacionadas com a forma como as pessoas «pensam, escolhem, se expressam e até mesmo a forma como são ouvidas».
Maria João Pires alertou ainda para o risco de enfraquecimento «da liberdade de expressão, da diversidade de pensamento e do direito à escolha», considerando existir também um impacto na capacidade individual de desenvolver talento próprio «sem condicionamento e sem formatação».
Segundo a pianista, a influência tecnológica começa também a refletir-se na criação artística e no afastamento de muitos jovens da «realidade profunda da criação, da verdade e da dignidade».
Defesa da pedagogia e da transmissão humana
Maria João Pires dedicou parte da intervenção à importância da pedagogia e da relação entre professor e aluno, defendendo que a transmissão humana do conhecimento continua a ser essencial.
A artista afirmou que «ensinar e ser ensinado, aprender e transmitir é, sem dúvida, uma das experiências humanas mais ricas que nos é dado viver».
A pianista considerou ainda que substituir estas experiências por processos exclusivamente tecnológicos representaria «a destruição colectiva da escola, da universidade, da pedagogia viva e da transmissão no seu sentido mais profundo».
Maria João Pires defendeu também o papel das instituições de ensino enquanto «guardiões dessa transmissão viva», apelando à preservação da cultura, da imaginação e da descoberta.
“É urgente proteger a consciência”
Ao longo da intervenção, a pianista deixou várias reflexões sobre a sociedade contemporânea, a degradação ambiental e a perda de pensamento autónomo.
Maria João Pires considerou que a sociedade atual vive um tempo marcado pela superficialidade, pelo consumo e pela perda de capacidades humanas, afirmando que «seria importante compreender que é urgente proteger a consciência. O nosso património humano, a nossa inteligência profunda e autêntica».
A artista defendeu ainda que cientistas, filósofos e artistas têm a responsabilidade de contribuir para uma evolução positiva da consciência humana.
Reconhecimento com “responsabilidade perante a cultura”
No final da intervenção, Maria João Pires agradeceu a distinção atribuída pela Universidade de Évora, considerando que o reconhecimento representa também uma responsabilidade.
«Recebo esta distinção não apenas como um reconhecimento do percurso realizado, mas também como uma responsabilidade perante a cultura, o pensamento e a consciência humana», afirmou.















