A produção de porco alentejano está a atravessar um dos momentos mais delicados das últimas décadas. A redução do número de animais, a falta de mercado nacional e a forte dependência de Espanha colocam em causa a continuidade de uma das principais raças autóctones portuguesas.
O alerta é deixado por Nuno Faustino, presidente da Associação de Criadores do Porco Alentejano (ACPA), em declarações ao jornal ODigital.pt,que admite um cenário de risco elevado.
“Temos para aí menos de 5.000 reprodutores a nível nacional. Estamos no grau de ameaça máxima em termos de extinção das raças autóctones”, afirma.
Apesar do reconhecimento da qualidade da carne, sobretudo quando os animais são acabados a bolota no montado, a valorização do produto continua a não acompanhar os custos de produção.
Produção de excelência sem mercado em Portugal
O porco alentejano distingue-se pela capacidade de infiltrar gordura no músculo, uma característica determinante para a produção de presuntos e enchidos de elevada qualidade. Ainda assim, essa valorização não encontra expressão no mercado nacional.
A ausência de procura interna consistente tem levado os produtores a escoar quase toda a produção para o exterior. “Nós exportamos quase 100% para Espanha”, explicou Nuno Faustino, acrescentando que o produto acaba por ser integrado na indústria do presunto ibérico.
Este cenário limita a afirmação da fileira em Portugal e acentua a dependência de mercados externos, deixando os produtores mais expostos a eventuais alterações comerciais ou sanitárias.
Restauração dita tendência e favorece o “porco preto”
No mercado nacional, o consumo é dominado pelo chamado “porco preto”, um animal resultante de cruzamentos que permite uma produção mais rápida e com menor custo. Esta realidade está diretamente ligada às exigências da restauração, que privilegia produtos com maior rendimento e preços mais competitivos.
“A restauração quer uma carne mais barata, com menos gordura e mais rendimento”, referiu Nuno Faustino.
Neste contexto, o porco alentejano puro, sobretudo o acabado a bolota, enfrenta maiores dificuldades de afirmação, já que exige ciclos de produção mais longos e custos superiores, o que limita a sua competitividade face a alternativas mais acessíveis.
Dependência de Espanha é vulnerabilidade crítica
A forte ligação ao mercado espanhol é vista como um dos principais riscos para o setor. Um eventual bloqueio às exportações poderá ter consequências imediatas para os produtores.
“Se não pudermos exportar, isso significa pura e simplesmente a ruína do setor”, alertou o presidente da ACPA.
O ciclo produtivo, que pode chegar a dois anos, exige investimentos significativos, aumentando a exposição a oscilações de mercado e restrições comerciais.
Clima, doenças e custos agravam incerteza
A produção em regime extensivo depende de fatores que escapam ao controlo dos produtores, desde as condições climáticas à disponibilidade de bolota, essencial para a fase final de engorda.
Em anos secos, a alimentação dos animais pode ficar comprometida, com impacto direto no crescimento e na qualidade da produção.
A este cenário soma-se o risco sanitário, nomeadamente a ameaça de doenças como a peste suína africana, num contexto que, como refere Nuno Faustino, evidencia a fragilidade do setor: “São atividades com muito risco e com variáveis que não controlamos”.
Falta de jovens no setor trava renovação
O envelhecimento dos produtores e a ausência de renovação geracional são outros dos desafios identificados, num setor já marcado por margens reduzidas e elevada burocracia. “Não há renovação geracional. São pessoas já com alguma idade”, indicou Nuno Faustino, sublinhando a dificuldade em garantir continuidade nas explorações.
Apesar da existência de apoios à manutenção da raça, estes não têm sido suficientes para inverter a tendência de redução do efetivo.
Futuro depende da valorização do produto
Para o presidente da associação, o futuro do porco alentejano está diretamente ligado à valorização económica do produto, num setor onde a resposta do mercado é determinante.
“O mercado é a única coisa que faz com que qualquer produto valorize”, afirmou Nuno Faustino, defendendo que sem essa valorização a produção continuará a perder expressão.
A manutenção da atividade, acrescenta, depende da capacidade de garantir rendimento aos produtores, sob pena de se agravar a redução do efetivo e comprometer uma fileira com peso na economia rural do Alentejo.















