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Projeto “Música de Tecla Portuguesa em 3D” quer retirar do silêncio obras do século XVIII

Projeto “Música de Tecla Portuguesa em 3D” pretende recuperar e divulgar sonatas portuguesas do século XVIII em acesso aberto.

A música portuguesa para instrumentos de tecla do século XVIII, ainda pouco conhecida do público, está no centro do projeto “Música de Tecla Portuguesa em 3D – Análise, Partitura e Registo Sonoro”, que procura reunir, estudar e divulgar este património num único formato acessível.

Em declarações ao Jornal ODigital.pt, a cravista e investigadora Mafalda Nejmeddine explica que a iniciativa surge com o objetivo de tornar visível um repertório que permanece disperso e pouco divulgado. «Poucos conhecem esta música. Hoje em dia ouvimos muito a música de compositores estrangeiros», refere, acrescentando que o projeto pretende «trazer o repertório português para instrumentos de tecla».

Um projeto que cruza investigação, edição e interpretação

A proposta assenta numa abordagem em três dimensões — análise, partitura e registo sonoro — que procura integrar diferentes formas de contacto com a música.

Segundo Mafalda Nejmeddine, trata-se de «um projeto de divulgação científica e cultural» que visa não apenas estudar as obras, mas também disponibilizá-las para interpretação e audição. «Vai-se recuperar esta música e torná-la num formato que vai ser possível depois ser usado para a sua divulgação», explica .

O projeto incide sobre três compositores portugueses da segunda metade do século XVIII — Pedro António Avondano, Alberto José Gomes da Silva e Francisco Xavier Baptista — considerados referências neste repertório.

Unificar um património disperso

Uma das principais características da iniciativa é a tentativa de reunir, num único suporte, materiais que até agora se encontravam dispersos.

«Temos a partitura num sítio, uma gravação noutro, e este projeto permite, no fundo, juntar tudo e divulgar tudo», afirma a investigadora da Universidade de Évora.

O modelo prevê a disponibilização de livros com análise e contextualização histórica, partituras em edição crítica e gravações integrais das obras, permitindo diferentes níveis de acesso ao repertório.

«Quem quer tocar tem ali a partitura. Quem quer conhecer a obra pode ouvi-la. Quem quer saber mais sobre o contexto pode ler», sintetiza.

Acesso aberto como eixo central

Todo o conteúdo produzido será disponibilizado em formato digital e em acesso aberto, uma opção que, segundo Mafalda Nejmeddine, é determinante para a divulgação internacional da música portuguesa.

«Qualquer pessoa pode descarregar os livros e tocar essas obras», sublinha, destacando o carácter pioneiro do projeto por reunir, num único espaço, análise, edição e registo sonoro .

A investigadora considera que esta integração permite criar «um formato ideal para divulgar» um repertório que, até agora, não tinha condições de circulação alargada.

Preservar e tornar tocável

Além da divulgação, o projeto assume também uma dimensão de preservação. Muitas das obras existem apenas em manuscritos ou em edições antigas, com limitações para a sua utilização contemporânea.

«Os músicos precisam de uma partitura com uma notação moderna, que se possa ler e que esteja corrigida dos erros», explica Mafalda Nejmeddine .

O trabalho inclui a comparação entre manuscritos e edições históricas, com vista à produção de versões fiáveis. A investigadora alerta que «temos obras que estão só num único manuscrito» e que, sem este processo, podem desaparecer.

A preservação estende-se também ao registo sonoro. «Temos aqui a preservação não só da partitura, como também do registo sonoro dessa própria música», acrescenta.

Ligação à Fundação da Casa de Bragança e concerto em Vila Viçosa

O projeto cruza-se com a Fundação da Casa de Bragança através do seu património documental e da programação cultural que acolhe iniciativas ligadas à música histórica.

Segundo Mafalda Nejmeddine, «o arquivo da Casa de Bragança é um arquivo musical que tem obras também e é muito rico no repertório do final do século XVIII», sublinhando a relevância destes acervos para a investigação e divulgação deste tipo de música .

A investigadora destaca ainda a existência de obras de compositores portugueses neste espólio, o que reforça a ligação entre o projeto e a instituição.

É neste contexto que se realiza, esta sexta-feira, uma conferência-concerto na Capela do Paço Ducal de Vila Viçosa, integrada na temporada da Fundação da Casa de Bragança. A iniciativa contará com a interpretação de obras dos compositores em estudo, articulando a investigação com a apresentação pública do repertório.

Dar continuidade a um repertório ainda por afirmar

Para Mafalda Nejmeddine, o objetivo final passa por integrar este repertório no circuito de estudo e interpretação musical.

«O objetivo é fazer com que a música seja tocada», afirma, defendendo que só através do estudo, edição e performance estas obras podem «ocupar o lugar que merecem na nossa história e na história mundial» .

O projeto prevê ainda a realização de conferências-concerto e outras iniciativas de divulgação em várias cidades, articulando a vertente científica com a apresentação pública das obras.

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