A realizadora Marta Mateus, natural de Estremoz, vai apresentar a sua primeira longa-metragem no DocLisboa esta sexta-feira.
“Fogo do Vento” passa-se em cenário tipicamente alentejano, na sua terra natal, durante a altura da vindima.
Segundo se pode ler na sinopse, a personagem principal chama-se Soraia, «uma jovem rapariga» que se corta e o «sangue mistura-se com o vinho».
Neste excerto surge ainda a figura do «touro negro» e o espaço das «copas das árvores», que servem de abrigo da «humanidade» que compartilha «o pão, o vinho, memórias e sonhos»: «História de uma paisagem e de uma luta».
De acordo com a realizadora, em declarações a’ODigital, o touro surge como figura importante para o desenrolar do filme.
«O Alentejo é a minha maior inspiração. O meu trabalho parte sempre da minha experiência e das minhas vivências. Da minha infância e da minha adolescência também», explicou Marta Mateus, desenvolvendo que «uma experiência que muita gente teve foi aparecer um touro negro no meio do campo».
Desta forma, «o que as pessoas fazem, quando isso acontece, é subir às árvores e por isso o filme passa-se quase todo em cima das árvores».
Uma «salvaguarda» das personagens face ao «mítico animal» e que, nesse contexto, «começam a partilhar as suas histórias». Será esse o «coração do filme».
Não revelando simbologias, até porque o touro negro «tem várias», para além do animal «que está presente na natureza e que existe em muitos sítios no Alentejo», a realizadora deixa esse ponto no ar.
«O touro é um animal mítico que tem muitos valores simbólicos, mas isso serão os espectadores a atribuir esses valores», disse.
Referiu apenas que o animal, no filme, está «em liberdade» e que «ataca».
Esta longa-metragem terá surgido dos «valores» que formaram Marta Mateus «enquanto pessoa» e que considera que «têm raízes» na paisagem alentejana.
«Eu trabalho com muitas histórias pessoais, mas que também contam parte das da nossa história coletiva», acrescentou.
Confessou que se interessa pelas «interseções narrativas conjugando as com os aspetos mais lendários dos contos e da oralidade», encontrando no Alentejo o «importante valor de transmissão» na palavra.
«Provavelmente é porque é uma região onde ainda há muita gente que não sabe ler nem escrever», destacou.
“Fogo do Vento” não é o primeiro trabalho da realizadora, pois em 2017 desenvolveu “Farpões Baldios”, que passou por vários palcos, incluindo o icónico Festival de Cannes, em França.
Já este segundo trabalho, trata-se de uma «continuação» do primeiro e estreou no também icónico Festival de Locarno, Suíça. Passou também por Nova Iorque e por «vários festivais em todo o mundo».















