A dignidade da pessoa com deficiência assume-se como o eixo central da atuação da CERCI Estremoz, que em 2026 celebra 50 anos de atividade. A mensagem é sublinhada por Helena Caldeira, vice-presidente da instituição, em entrevista ao podcast “Factos e Conversas”, do Jornal ODigital, cuja versão em vídeo é publicada esta terça-feira.
Ao longo da conversa, Helena Caldeira faz um balanço do percurso da CERCI Estremoz, das respostas sociais criadas ao longo de meio século e dos desafios atuais e futuros no apoio a pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade.
Dignificar a pessoa antes da deficiência
Para a vice-presidente, a missão da CERCI Estremoz vai além da prestação de serviços sociais. «O nosso foco é a dignificação daquelas pessoas», afirma, defendendo que a deficiência não pode definir a identidade de quem é apoiado. «Antes de ter deficiência é a pessoa. No cartão de cidadão não vem ‘o deficiente’, vem o João, a Maria», sublinha.
Helena Caldeira rejeita visões assistencialistas e estigmatizantes, defendendo uma abordagem baseada na equidade. «Não é difícil fazer uma pessoa com deficiência feliz, mas é nossa missão torná-la feliz com dignidade», afirma, acrescentando que «pena é o pior sentimento que se pode ter por alguém».
Uma instituição em constante adaptação
Criada em 1976, a CERCI Estremoz acompanhou profundas transformações sociais e clínicas. Segundo Helena Caldeira, as respostas da instituição foram sendo ajustadas às novas realidades, com destaque para o aumento dos casos de doença mental, patologias degenerativas e perturbações do espectro do autismo.
«O que temos neste momento é muita doença mental e muitas doenças degenerativas. Isso obriga a instituição e os trabalhadores a serem resilientes e a adaptarem-se constantemente», refere, sublinhando a importância da formação contínua das equipas.
Sete concelhos, múltiplas respostas
Atualmente, a CERCI Estremoz intervém em sete concelhos dos distritos de Évora e Portalegre — Estremoz, Borba, Alandroal, Redondo, Vila Viçosa, Sousel e Fronteira — abrangendo cerca de três dezenas de localidades.
A instituição assegura várias respostas, incluindo lar residencial, centro de atividades, intervenção precoce, formação profissional e encaminhamento para o mercado de trabalho. «Às vezes a comunidade não tem a perfeita noção da dimensão da instituição», admite Helena Caldeira.
Empregabilidade e formação como fatores de inclusão
A formação profissional e a empregabilidade surgem como pilares da inclusão social. «Já fizemos a diferença na vida de muitas pessoas», afirma a vice-presidente, destacando o trabalho desenvolvido no Centro de Qualificação e Emprego.
Segundo Helena Caldeira, o percurso nem sempre é linear. «Não são dois passos para a frente sem recuar. O trabalho é feito por passos», refere, sublinhando a importância do acompanhamento contínuo e do reforço de competências ao longo da vida.
Parcerias e proximidade à comunidade
A entrevista evidencia também o reforço da ligação à comunidade, às autarquias e às entidades públicas e privadas. O aumento de parcerias, o crescimento da consignação do IRS e a colaboração com escolas e empresas são apontados como indicadores desse trabalho.
«Hoje temos instituições e empresas que nos procuram, algo que não acontecia no passado», afirma Helena Caldeira, destacando ainda a doação de um autocarro resultante da colaboração entre os sete municípios da área de intervenção.
Projetos futuros e os 50 anos como momento de viragem
No horizonte está a ampliação do lar residencial e a deslocalização da sede para o centro urbano de Estremoz, reforçando a proximidade à comunidade e a eficiência na gestão de recursos. Para a vice-presidente, 2026 poderá marcar «o ano da viragem».
«O facto de estarmos há 50 anos não significa que saibamos tudo. Às vezes, quando estamos muito tempo, ficamos na zona de conforto», admite.
Uma mensagem à sociedade
No final da entrevista, Helena Caldeira deixa um apelo à sociedade: «Olhem para a diferença sem preconceito». Para a responsável, qualquer pessoa pode, a qualquer momento, tornar-se uma pessoa com deficiência. «Amanhã podemos ser nós», alerta.
A entrevista completa pode ser vista de seguida:















