A emoção percebeu-se antes das palavras. António Ferreira tentou conter as lágrimas, respirou fundo e olhou para os bombeiros, autarcas e dirigentes que enchiam o salão em Vila Viçosa na VII Bênção dos Capacetes dos Bombeiros do Distrito de Évora. Mais de meio século de serviço nos bombeiros, admitiu nunca ter vivido um momento semelhante.
«Hoje é a maior alegria que vi nos bombeiros», disse ao Jornal ODigital.pt, poucos minutos depois de receber a Fénix de Honra da Liga dos Bombeiros Portugueses.
A distinção reconheceu uma vida dedicada aos Bombeiros Voluntários de Borba, mas também aos de Vila Viçosa, onde durante anos deixou marca num período particularmente difícil da corporação.
Na cerimónia, vários dos presentes aproximaram-se para o abraçar. Alguns foram bombeiros sob o seu comando. Outros cruzaram-se consigo em incêndios, acidentes e operações ao longo de décadas. António Ferreira conhece muitos deles pelo nome. E fala deles como família.
«Ninguém me atira abaixo. Sou amigo de toda a gente», afirmou.
O comandante chamado para resolver crises
Ao longo da conversa, António Ferreira recuou aos anos em que acumulou o comando das corporações de Borba e Vila Viçosa, numa altura em que os bombeiros calipolenses atravessavam dificuldades internas e operacionais.
Recorda esse período como uma missão de estabilização e união entre equipas.
«Tive dois anos e meio em que comandava os bombeiros de Vila Viçosa e ao mesmo tempo comandava os Bombeiros de Borba», contou.
Pelo meio, diz ter ajudado a ultrapassar divisões e conflitos existentes entre estruturas e elementos das corporações.
«Acertámos os passos e criei aqui uma amizade tão grande como os da minha casa», referiu.
No discurso pausado surgem referências constantes aos homens com quem trabalhou. Fala dos chefes, dos comandantes e dos bombeiros que encontrou nos incêndios rurais que marcaram várias gerações no Alentejo. E lembra também Carlos Vitorino, antigo comandante de Vila Viçosa, que considera ter tido um papel importante na continuidade da corporação.
“Esta prenda é de todos”
Apesar da homenagem individual, António Ferreira recusou assumir a distinção como um reconhecimento apenas pessoal.
Ao longo da entrevista repetiu várias vezes a ideia de partilha, insistindo que o percurso feito nos bombeiros nunca foi construído sozinho.
«É uma prenda, mas não é minha, é nossa», afirmou.
A frase resume a forma como olha para quase seis décadas de serviço. Um percurso feito entre incêndios, comandos, formações e operações de socorro, mas também marcado pela ligação às populações e às corporações do distrito de Évora.
Em Vila Viçosa, no dia em que recebeu a Fénix de Honra da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Ferreira voltou a ser tratado como muitos ainda o conhecem no terreno: comandante.
















