O Boneco de Estremoz, reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, continua a afirmar-se como um dos símbolos do Alentejo. No mais recente episódio do podcast “Factos e Conversas”, do Jornal ODigital.pt, Alexandre Correia, Grão-Mestre da Confraria do Boneco de Estremoz, abordou o trabalho desenvolvido pela instituição, os desafios da preservação desta arte e os planos para o futuro.
Durante a conversa, o responsável destacou o percurso recente da confraria, criada em 2023, e o conjunto de iniciativas realizadas para promover o figurado em barro estremocense em diferentes pontos do país.
«Somos ainda uma confraria muito jovem, mas já desenvolvemos um conjunto de atividades que muito nos orgulha», afirmou Alexandre Correia, referindo a participação em eventos nacionais de artesanato e iniciativas culturais realizadas ao longo de 2024 e 2025.
Atividade da confraria marcou 2025
Entre os momentos destacados esteve a organização da primeira edição do Mercado do Património Cultural Imaterial, em Estremoz, iniciativa que reuniu diferentes expressões do património artesanal.
Segundo Alexandre Correia, o evento teve impacto no setor e na divulgação da tradição.
«O mercado do património cultural imaterial foi uma lufada de ar fresco nas feiras de artesanato», referiu, citando uma avaliação feita por uma personalidade ligada ao artesanato nacional.
O ano de 2025 ficou também marcado pela inauguração da sede da confraria, instalada no Museu Professor Joaquim Vermelho, num espaço ligado historicamente à produção artesanal.
«Quisemos reabilitar um espaço que já tinha sido criado para promover e divulgar Estremoz. Para nós fez todo o sentido continuar esse objetivo», explicou.
Mais de 300 anos de história
Durante o podcast, Alexandre Correia recordou a origem do Boneco de Estremoz, cuja tradição remonta a mais de três séculos.
De acordo com o Grão-Mestre, as primeiras figuras terão surgido entre os séculos XVII e XVIII e estavam ligadas a representações religiosas.
«As figuras nasceram como imagens de devoção para as casas das pessoas», explicou, acrescentando que Santo António, Nossa Senhora da Conceição e São João estão entre as representações mais antigas.
O responsável sublinhou que a essência do Boneco de Estremoz reside na técnica e na estética próprias desta tradição.
«A essência do boneco de Estremoz é a sua técnica e a sua estética», afirmou, defendendo a importância de preservar as características identitárias do figurado.
Inovação com respeito pela tradição
Apesar da forte ligação à tradição, Alexandre Correia considera que existe espaço para inovação, desde que respeite a história e os princípios desta arte.
«Devemos inovar respeitando a tradição», explicou, apontando como exemplo a criação recente de novas figuras inspiradas em devoções locais que nunca tinham sido representadas no figurado de Estremoz.
Para o responsável, este equilíbrio entre continuidade e criatividade permite manter viva a tradição ao longo das gerações.
Divulgação é essencial para garantir o futuro
Outro dos temas abordados na conversa foi a necessidade de promover o Boneco de Estremoz fora do concelho, de forma a assegurar a sua continuidade.
Segundo Alexandre Correia, a elevada procura pelas peças faz com que muitos barristas trabalhem sobretudo por encomenda e tenham pouca disponibilidade para participar em feiras de artesanato.
«Se não formos aos eventos e não divulgarmos o boneco de Estremoz, é uma questão de tempo até deixar de haver procura», alertou.
Nesse sentido, a confraria tem assumido o papel de representar os barristas em diferentes eventos, reunindo peças de vários artesãos para apresentar em feiras e mostras de artesanato.
Planos para 2026
Para 2026, a confraria prevê manter a presença em vários eventos nacionais de artesanato, incluindo iniciativas em Estremoz, Barcelos, Caldas da Rainha, Tavira e Lisboa.
Entre os projetos em preparação está também a segunda edição do Mercado do Património Cultural Imaterial, que decorrerá entre 5 e 7 de junho, com programação cultural e participação de diferentes expressões do património tradicional.
Alexandre Correia sublinhou que o principal objetivo da confraria não é comercial.
«O nosso grande objetivo é promover e divulgar o boneco de Estremoz e os seus detentores do saber-fazer», afirmou.
Património identitário do Alentejo
No final da entrevista, o Grão-Mestre deixou um convite a quem ainda não conhece esta tradição.
«Venham conhecer o boneco de Estremoz. É um símbolo maior não só de Estremoz e do Alentejo, mas também do nosso país», disse.
O episódio completo do podcast “Factos e Conversas”, com Alexandre Correia, pode ser visto de seguida.















