O maestro e divulgador cultural Martim Sousa Tavares defendeu em Évora uma maior ligação entre os artistas e a comunidade, sublinhando que o impacto da cultura depende da relação que se estabelece com as pessoas que vivem nos territórios.
A reflexão foi apresentada durante uma sessão dedicada ao tema «Cultura & Tecnologia», promovida pela Associação Évora_27 e pelo CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento, no Palácio de D. Manuel.
Na sua intervenção, o maestro destacou que a preparação de Évora como Capital Europeia da Cultura em 2027 deve colocar no centro a participação das comunidades e a forma como os projetos culturais ganham significado junto das pessoas.
Significado da cultura nasce na relação com as pessoas
Martim Sousa Tavares explicou que a cultura tem uma dimensão que ultrapassa a intenção dos artistas e das instituições culturais.
«Nós podemos controlar o propósito daquilo que fazemos, mas não somos donos do significado», afirmou, acrescentando que esse significado é construído pelas pessoas que recebem as obras culturais.
Segundo o maestro, a missão dos agentes culturais passa por criar projetos e iniciativas, mas o impacto dessas ações depende da forma como são vividas pelas comunidades.
«Cada vez que faço um concerto e alguém vem ter comigo e diz que aquilo teve um significado especial, eu penso sempre que não consigo imaginar esse significado, porque ele pertence à pessoa que o recebeu», disse.
Para o músico, esta relação entre intenção artística e experiência do público é central para compreender o papel da cultura na sociedade.
Capital Europeia da Cultura deve envolver quem vive na cidade
O maestro considerou que a Capital Europeia da Cultura representa uma oportunidade para reforçar essa ligação entre cultura e comunidade.
Na sua perspetiva, o projeto não deve ser pensado apenas para visitantes ou para o exterior, mas sobretudo para quem vive no território.
«A Capital Europeia da Cultura faz aqui muita falta porque, antes de mais, é uma capital para as pessoas que vivem na cidade», afirmou.
Martim Sousa Tavares referiu que, apesar da visibilidade internacional associada ao título, o verdadeiro impacto dependerá da capacidade de envolver a sociedade local.
Artistas têm responsabilidade social nas comunidades
Durante a intervenção, o maestro refletiu também sobre o papel social dos artistas e agentes culturais.
Segundo explicou, muitas vezes existe a perceção de que os artistas vivem afastados da vida das comunidades, algo que considera não corresponder ao papel que a cultura pode desempenhar.
«Há um lado social de devolver à comunidade aquilo que recebemos dela», afirmou.
Martim Sousa Tavares acrescentou que esse contributo pode assumir várias formas, desde atividades em escolas a iniciativas culturais locais ou projetos que aproximem os cidadãos da criação artística.
O maestro referiu que, desde que passou a viver em Évora, tem procurado participar em iniciativas culturais e educativas na cidade, como apresentações de livros ou atividades em escolas.
Cultura pode criar novas ligações entre artistas e cidadãos
Na sua reflexão, Martim Sousa Tavares sublinhou ainda que um dos desafios das políticas culturais passa por tornar visível o trabalho dos artistas junto da sociedade.
O maestro apontou como exemplo a existência de artistas e espaços culturais que permanecem desconhecidos para muitas pessoas que vivem na mesma cidade.
«Quantas pessoas passam todos os dias por um ateliê de um artista sem saber o que existe ali dentro», questionou, defendendo a necessidade de criar pontes entre criadores e público.
Para o músico, iniciativas culturais associadas à Capital Europeia da Cultura podem ajudar a promover esse encontro entre artistas e comunidades.
Martim Sousa Tavares concluiu que o sucesso de Évora 2027 dependerá da capacidade de criar esse diálogo, não apenas durante o ano do título, mas também nos anos seguintes.















