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Da ocupação russa à nova vida em Évora: Quatro anos depois, médica ucraniana ainda luta para reconstruir vida

Lana Krylevska fugiu da guerra na Ucrânia em 2022 com o marido e duas filhas. Quatro anos depois, tenta refazer a vida em Évora.

A 24 de fevereiro de 2022, a guerra voltou à Europa. Naquela madrugada, as forças russas atravessaram a fronteira da Ucrânia e alteraram o destino de milhões de pessoas.

Quatro anos depois, muitas dessas famílias continuam fora do país. Entre elas está a de Lana Krylevska, médica ucraniana que fugiu da região de Kharkiv com o marido e as duas filhas e encontrou em Évora um ponto de recomeço.

Instalada na cidade alentejana desde o verão de 2022, vive entre a tentativa de reconstruir a carreira na medicina e a preocupação diária com os familiares que permaneceram na Ucrânia.

Contudo, antes da invasão russa, a realidade era outra. Trabalhava como médica e dava aulas numa universidade de medicina. O marido exercia funções na área da agricultura.

Em entrevista ao Jornal ODigital.pt, Lana destacou que “a vida antes do início da guerra era muito boa, porque tínhamos tudo o que desejávamos”.

Kharkiv
The Derzhprom (or Gosprom) building, Kharkiv, Ukraine. Photo: Ekaterina Polischuk / wikipedia.org

O dia em que a guerra chegou

Na madrugada de 25 de fevereiro de 2022, a família encontrava-se na aldeia onde vivem os pais de Lana, a cerca de 100 quilómetros de Kharkiv, perto da cidade de Izium. A região foi ocupada por forças russas logo nos primeiros minutos da invasão.

“Num dia estávamos na Ucrânia, no outro estávamos ocupados”, descreveu. Refugiaram-se numa cave, mas rapidamente perceberam que não havia segurança: “Tentámos salvar as nossas vidas”.

Segundo contou, os soldados russos permaneceram na aldeia, entravam nas casas e revistavam documentos. Assim, durante semanas, não tiveram possibilidade de sair, nem “tínhamos luz, gás, aquecimento, telemóvel, internet”.

Só depois de Izium ter sido ocupada é que conseguiram abandonar a zona e só no dia 7 de junho de 2022 é que iniciaram a fuga, atravessando território russo para chegar à Letónia, numa viagem de vários dias, com múltiplos postos de controlo e revistas militares.

“Tivemos de esperar cerca de 15 horas, de fila, para entrar na Rússia”, relatou. Depois, mais 18 horas de viagem até à fronteira com a Letónia. “Foi muito mau, acho que me tirou uns 20 anos de vida”, destacou ainda.

Zona entre Kharkiv e Izium/ Google Maps

Da Letónia a Évora

Na Letónia permaneceram cerca de dez dias, em Rezekne. Foi aí que Lana procurou informação sobre países que permitissem aos médicos ucranianos trabalhar. E foi aí que encontrou referência a Portugal.

“Vi que Portugal iria permitir que os médicos ucranianos trabalhassem sem saber falar português”, explicou. A família ponderou o clima, o sistema de ensino e o custo de vida e decidiram seguir para Évora, evitando Lisboa e Porto “porque sabíamos que ia ser mais difícil, mais caro”.

A viagem até ao Alentejo fez-se de carro, ao longo de quatro dias, com paragens em casas de antigos coelgas de profissão e de escola na Alemanha, Bélgica e França.

Mesmo vivendo na incerteza, Lana realçou que “foram dias de alívio”, uam vez que “já não tínhamos medo de que uma bomba nos iria tirar a vida”, mas também não foi fácil: “Chorava todos os dias”.

À chegada, ficaram temporariamente num hostel no centro histórico de Évora. Mais tarde, com apoio de um voluntário ucraniano, Ivan, conseguiram habitação através da Fundação Eugénio de Almeida, no Páteo de São Miguel, por um período de um ano.

“Gostei muito dos portugueses”, afirma, sublinhando o apoio recebido nos primeiros meses, nomeadamente no processo de inscrição das filhas na creche e na escola, abertura de conta bancária e regularização documental.

Trajeto (estimado) da família de Lana/ Google Maps

Burocracia e equivalência do diploma

Quatro anos depois do início da guerra, a situação da família continua marcada pela incerteza. A proteção temporária atribuída aos refugiados ucranianos termina no próximo dia 4 de março e Lana aguarda esclarecimentos sobre a renovação dos documentos de residência.

“Tem sido uma batalha difícil contra a burocracia”, disse, referindo ainda que “sempre que sai alguma resolução do governo, temos de imprimir e já tenho uma caixa com papéis em casa”.

O reconhecimento do diploma de médica tem sido outro dos principais obstáculos, pois o processo implica a realização de quatro exames em universidades portuguesas, inscrição na Ordem dos Médicos e cumprimento do ano comum.

“Tive de começar do zero”, aclarou. Realizou o exame de português em 2023. Em 2024 não passou na primeira parte teórica da prova de equivalência, mas já conseguiu em 2025. Agora aguarda a “parte prática”.

“Os termos médicos não são diferentes, porque são latinos, mas a formulação de perguntas foi o mais difícil”, vincou a ucraniana, explicando ainda que “é uma tentativa por ano e, se não passar duas vezes, o processo fecha-se e tenho de começar outra vez”.

Atualmente não está a trabalhar. Divide o tempo entre cursos do centro de emprego, preparação para exames e o acompanhamento das filhas.

“Queria trabalhar para ter uma vida confortável. Receber um salário para ter uma vida normal, para dar às minhas filhas o que elas precisam. Sei que Portugal tem problemas na área da medicina”, sublinhou.

Páteo de São Miguel
Páteo de São Miguel/ Fundação Eugénio de Almeida

Família dividida e guerra sem fim à vista

Parte significativa da família permaneceu na Ucrânia. A aldeia onde vivem os pais voltou ao controlo ucraniano em outubro de 2022, mas a instabilidade mantém-se.

“Todas as manhãs, quando pego no telemóvel, nunca sei o que poderá ter acontecido”, relatou, falando em falhas frequentes de eletricidade, comunicações e ataques com drones: “As pessoas ucranianas sobrevivem, não vivem”.

Com duas filhas pequenas, Lana destacou que apenas fala da guerra com a mais velha, porque “já viu tudo, já percebeu tudo”.

“Ela pergunta sobre a situação. Sobre quando é que acaba a guerra, sobre as amigas dela, tem saudades dos familiares”, frisou Lana, afirmando ainda que “nós falamos sobre isso, choramos sobre isso”.

Já a mais nova, “ainda só tem quatro anos” e “ainda não falámos sobre isso”, mas “ela sabe que é ucraniana”: “Pergunta porque é que só vê os avós no telemóvel, porque os colegas dela têm cá os avós”.

Quanto ao futuro, Lana admite que a guerra “vai terminar”, mesmo que não saiba quando, porém diz não saber em que condições ficará o país: “A vida não vai voltar ao início, vai ser completamente nova”.

Para já, a prioridade é garantir estabilidade às filhas em Portugal. “Para salvar as vidas das crianças, tentamos ter uma nova vida em Portugal.” O regresso à Ucrânia só será ponderado se não houver possibilidade de permanecer legalmente na Europa.

“Agradeço a Portugal e aos portugueses”, afirmou, deixando ainda uma mensagem:” Nós, refugiados ucranianos e os outros estrangeiros, não pedimos para que tenham pena de nós, só queremos paz e uma vida melhor.”

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