A classificação da Senha da Liberdade como bem de interesse nacional, com a designação de «tesouro nacional», marca, segundo a vice-presidente da CCDR Alentejo com a tutela da Cultura, Ana Paula Amendoeira, um reconhecimento formal do Estado português sobre o valor histórico e patrimonial dos fonogramas associados ao 25 de Abril de 1974.
Em declarações ao Jornal ODigital.pt, Ana Paula Amendoeira sublinha que a decisão «significa o reconhecimento nacional do Estado português sobre a importância cultural, patrimonial e simbólica destes documentos», referindo que estão em causa suportes físicos originais, constituídos por fitas magnéticas com registos áudio integrais e não editados.
Classificação incide sobre documentos físicos da senha
A responsável esclarece que não foi classificada apenas a canção “Grândola, Vila Morena”, mas sim o conjunto fonográfico que integra a gravação transmitida na madrugada de 25 de Abril de 1974, no programa “Limite”, da Rádio Renascença.
«É uma fita que dura cerca de 11 minutos, com toda a gravação transmitida naquela madrugada», explica, acrescentando que o registo inclui a intervenção do locutor, a leitura de um poema e a difusão da canção de José Afonso, que serviu de senha ao Movimento das Forças Armadas.
O segundo conjunto classificado corresponde às gravações do I Encontro da Canção Portuguesa, realizado em março de 1974, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Segundo Ana Paula Amendoeira, este registo «contextualiza porque é que a Grândola veio a ser escolhida como senha», recordando que a canção não constava da lista de obras censuradas.
Primeiro património fonográfico classificado em Portugal
A vice-presidente da CCDR Alentejo destaca ainda que esta é a primeira vez que património fonográfico é classificado como bem de interesse nacional em Portugal.
«Tem a particularidade de ser o primeiro património fonográfico português a ser classificado», afirma, salientando que a proposta foi coordenada pela então Direção Regional de Cultura do Alentejo, em conjunto com o Município de Grândola.
O processo de classificação teve início formal a 25 de abril de 2024, data da assinatura da abertura do procedimento, e foi agora publicado em Diário da República, após aprovação em Conselho de Ministros e promulgação presidencial.
Proposta de candidatura à Memória do Mundo da UNESCO
Com a classificação nacional concluída, a CCDR Alentejo pretende avançar para o reconhecimento internacional.
«A nossa intenção é propor a classificação da Senha da Liberdade como Memória do Mundo da UNESCO», revela Ana Paula Amendoeira, explicando que o programa da UNESCO distingue documentos considerados relevantes para a memória coletiva da humanidade.
A responsável considera que o documento «simboliza uma mudança de regime para a democracia e para a liberdade na Europa» e que a sua importância «extravasa as fronteiras do país».
Preservação assegurada e plano de divulgação
Os suportes originais encontram-se preservados no arquivo da Fundação Mário Soares e no arquivo da RTP. «Estão guardados e a sua salvaguarda está assegurada», garante.
Apesar de existirem cópias digitais acessíveis, a responsável defende uma estratégia estruturada de divulgação e mediação cultural, sobretudo junto das escolas. «A melhor maneira de salvaguardar o património é conhecê-lo», afirma.
Segundo Ana Paula Amendoeira, a história detalhada da escolha da senha e do próprio registo fonográfico «era praticamente desconhecida», pelo que a classificação abre caminho a um trabalho de contextualização histórica e pedagógica.
Outros registos fonográficos podem ser valorizados
Questionada sobre a possibilidade de novas classificações, a vice-presidente admite que existem outros registos com potencial de reconhecimento, referindo, a título pessoal, gravações de Michel Giacometti sobre o património oral alentejano, incluindo o Cante.
Para a responsável, o facto de esta classificação incidir sobre um documento associado ao 25 de Abril tem também um significado simbólico.
«Contribuiu para abrir o caminho que nos deu a liberdade», afirma, acrescentando que a publicação ocorre no ano em que se assinalam 50 anos da Constituição da República Portuguesa.















