Os estudantes do ensino superior têm agora direito a cheques-psicólogo, atribuídos pelo Governo.
Trata-se de uma medida resultante da cooperação do Estado com a Ordem dos Psicólogos, onde serão disponibilizadas 100 mil consultas de psicologia a estes estudantes e que abrange cerca de 300 especialistas na área da psicologia clínica.
Para o efeito, o estudante terá de fazer o pedido através deste portal e seguir os passos indicados. Depois será escolher um dos 300 psicólogos que a medida abrange. Desta forma, serão atribuídos 12 cheques, onde os primeiros dois serão de consultas de avaliação.
No entanto, Raquel Raimundo, presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos, destacou a’ODigital, que esta medida será apenas «complementar», já que existem «critérios de exclusão».
«Medida complementar»
«Olhamos para esta medida como complementar, até porque os critérios de exclusão, por exemplo, de não atendimento de situações de bipolaridade ou de ideação suicida, porque implica também o acompanhamento de uma equipa multidisciplinar que este psicólogo não abrange», afirmou.
Isto porque este cheque não está destinado a estudantes que apresentem sintomas com duração superior a um ano e seis meses; consumo problemático de substâncias e comportamentos aditivos; Diagnóstico de perturbação psicótica ou bipolar, diagnóstico de perturbação da personalidade; Tentativas de suicídio prévias ou risco de suicídio; Necessidades educativas específicas (devendo este acompanhamento ser garantido pelas próprias instituições de ensino superior).
Todas estes fatores necessitarão de «uma intervenção que não esta, de âmbito mais reduzido», já que a patologia do foro psicológico já estará «instalada». Assim, «há a probabilidade de haver a necessidade de um acompanhamento mais alargado, como também multidisciplinar».
«Ainda há instituições do ensino superior sem um único psicólogo»
«Consideramos que esta medida é insuficiente para lidar com estas situações», acrescentou a presidente.
Ainda assim, Raquel Raimundo revelou que é uma medida vista com «bom grado», num sentido de «compensatória», já que «ainda estará longe de uma resposta».
Resposta essa que «deve vir, sobretudo e no nosso ponto de vista, mais a nível estrutural e das estruturas», ou seja, o ideal seria «o reforço nas próprias estruturas do SNS», tanto de profissionais, como de «programas de natureza mais preventiva».
«A resposta tem de ser essa, até porque, infelizmente, ainda há instituições do ensino superior sem um único psicólogo», frisou.
Preventivo será o trabalho do psicólogo nas instituições de ensino superior, segundo a presidente, já que pretende «ajudar a que a pessoa não adoeça».
«Têm aqui um trabalho bastante alargado de apoio e de ajuda aos estudantes a vários níveis. De adaptação logo à partida, às vezes, a uma nova cidade, a um novo ciclo de ensino do ponto de vista académico, em termos de exploração vocacional ou de preparação, inclusive para a adaptação profissional futura. De ajudarem mais questões do foro socioemocional, como regulação emocional ou trabalho em equipa ou comunicação interpessoal», sublinhou Raquel Raimundo.
«Potencialmente útil e provavelmente transitória»
Este cheque vai abranger também estudantes com «perturbações consideradas comuns», como a ansiedade e a depressão.
Para além disso, o referido acordo entre o Estado e a Ordem prevê também que «possa haver uma reavaliação e algum prolongamento de sessões, se for necessário». «Nas situações que isso possa ocorrer, é importante que as restantes estruturas onde existem psicólogos a trabalhar também possam dar resposta», esclareceu ainda a presidente.
«É também por este motivo que olhamos para esta medida como potencialmente útil e provavelmente transitória», destacou Raquel Raimundo, embora esta medida «possa vir a ser alargada no tempo».
«A pandemia não trouxe só coisas más»
Neste ano letivo, e juntando aos cheques-psicólogos, há também disponíveis os cheques-nutricionista. Certo que fora da área da presidente da delegação da ordem dos psicólogos, mas que vê também com «bons olhos».
«Vemos com bons olhos que outras especialidades possam vir a ter no sentido do bem comum», vincou, complementando que «a Ordem dos Nutricionistas também é capaz de considerar esta medida como complementar».
A concluir, Raquel Raimundo confessou que esta medida poderá ser “consequência” da pandemia, já que o «estigma» em volta da sua profissão «reduziu»: «A pandemia não trouxe só coisas más, também houve alguns efeitos colaterais positivos».















