Os trabalhos de escavação paleontológica realizados na Praia da Galé, no concelho de Grândola, permitiram identificar fósseis marinhos com cerca de 10 milhões de anos, incluindo dois esqueletos parciais de baleias. A operação terminou no final da semana passada, após uma intervenção científica considerada urgente devido ao risco de perda dos vestígios.
A descoberta surgiu na sequência das tempestades que atingiram o país durante o inverno e que provocaram remobilizações significativas de areia naquela zona do litoral alentejano. A exposição de formações rochosas revelou vários fósseis, levando o município de Grândola a solicitar apoio especializado ao Museu da Lourinhã para garantir a sua salvaguarda.
A 20 de fevereiro realizou-se no local uma reunião com entidades oficiais, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente e a Polícia Marítima, que autorizaram o início imediato dos trabalhos de escavação.
Escavação realizada numa zona afetada pelas marés
Os fósseis encontravam-se numa zona entremarés, permanentemente sujeita à ação da ondulação e à reposição de sedimentos. Esta situação obrigou à realização de uma escavação de emergência, numa operação condicionada pelo acesso limitado ao local e pelos horários das marés.
A equipa envolveu paleontólogos do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, além de técnicos do Município de Grândola. Durante vários dias, os especialistas procederam à escavação, conservação, acondicionamento e transporte dos fósseis.
Laje com mais de 100 metros revelou diversidade de fósseis
As tempestades expuseram uma laje de rocha sedimentar com mais de 100 metros de extensão. Estas rochas pertencem à Formação de Alcácer do Sal, depositada durante o Miocénico, entre o Serravaliano superior e o Tortoniano inferior, há cerca de 10 milhões de anos.
Os depósitos integram a Bacia de Alvalade, uma bacia cenozoica que aflora no concelho de Grândola. Na área foram identificados fósseis de diversos grupos de animais marinhos.
Entre os vertebrados surgiram restos de baleias, golfinhos, tartarugas, tubarões, peixes ósseos e possíveis aves. Foram também encontrados vários invertebrados, como bivalves, gastrópodes, equinodermes e balanídeos, conhecidos como cracas, além de icnofósseis associados à atividade biológica nos sedimentos.
Dois esqueletos parciais de baleias entre os achados
Entre os fósseis identificados destacam-se dois esqueletos parciais de baleias pertencentes ao grupo Mysticeti, que inclui as atuais baleias de barbas. Estes animais alimentam-se através de placas queratinosas que filtram grandes quantidades de alimento.
Um dos exemplares inclui um crânio, duas mandíbulas quase completas e várias vértebras e costelas. O segundo apresenta um crânio quase completo, partes das mandíbulas, vértebras, costelas e possíveis ossos associados aos membros anteriores e à cintura escapular.
Os investigadores consideram que estes animais poderão pertencer à família Cetotheriidae, um grupo de baleias de pequeno a médio porte que habitava as águas da costa portuguesa durante o Miocénico.
Um dos registos mais completos de baleias fósseis em Portugal
Segundo os especialistas envolvidos no estudo, os esqueletos agora recuperados estão entre os mais completos de baleias fósseis do Miocénico encontrados em Portugal e entre os mais completos identificados na Europa.
O estudo destes fósseis poderá contribuir para compreender a evolução das baleias primitivas, bem como o ambiente marinho existente na região há milhões de anos.
Portugal possui vários registos fossilíferos deste período, sobretudo nas regiões de Lisboa e Setúbal, associados à Bacia do Baixo Tejo. A jazida identificada a norte da Praia da Galé passa agora a integrar os locais com maior relevância científica na Bacia de Alvalade.
Fósseis seguem para o Museu da Lourinhã
Os fósseis encontram-se atualmente à guarda do Município de Grândola e deverão ser transportados nas próximas semanas para o laboratório do Museu da Lourinhã. No local serão realizados trabalhos de preparação, conservação e estudo científico.
A equipa responsável pela escavação foi coordenada pela paleontóloga Carla Tomás, do Museu da Lourinhã, pelo paleontólogo Pedro Mocho, do Instituto Dom Luiz e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, e pelo arqueólogo Nuno Inácio, da Câmara Municipal de Grândola.
Está também em preparação um protocolo de cooperação entre as instituições envolvidas, com o objetivo de promover a investigação, divulgação científica e futura apresentação pública deste achado paleontológico.















