A música voltou a ocupar a Capela do Paço Ducal de Vila Viçosa no final de março, dando início a mais uma temporada de concertos promovida pela Fundação da Casa de Bragança. O primeiro espetáculo já teve lugar, mas o ciclo deste ano traz uma alteração no modelo habitual: pela primeira vez, um dos concertos vai sair da capela e acontecer ao ar livre, nos jardins do palácio.
A decisão marca uma inflexão numa programação que, ao longo dos anos, se consolidou num formato estável, centrado na música erudita e no espaço da capela. Em 2026, a estrutura mantém-se — dez concertos entre março e dezembro —, mas abre-se a novas geografias dentro do próprio Paço.
Da capela para o exterior: uma mudança de escala e de relação com o espaço
O concerto de jazz previsto para os jardins do Paço Ducal representa mais do que uma alteração de cenário. É uma tentativa de alargar a experiência musical e de a relacionar com o espaço envolvente, num momento em que o jardim voltou a estar acessível ao público.
«Vamos ter um concerto no jardim do Palácio (…) um concerto de jazz», explica Ana Saraiva, diretora do Museu-Biblioteca da Fundação da Casa de Bragança, sublinhando que a opção surge no contexto de uma estratégia mais ampla de diversificação. «Faz muito sentido diversificar também os espaços de música», acrescenta
O espetáculo contará com os músicos António Eustáquio e Carlos Barreto, num registo distinto daquele que caracteriza a maioria da temporada. A escolha do jazz introduz uma linguagem musical menos habitual no ciclo e acompanha a mudança de espaço, afastando-se da lógica exclusivamente associada à música erudita e sacra.
Uma temporada que já começou — e que se constrói ao longo do ano
O arranque da temporada aconteceu a 27 de março, com um concerto que assumiu também um formato de conferência, resultado de trabalho de investigação sobre o arquivo musical do Paço. A ligação entre investigação e programação artística mantém-se como um dos eixos estruturantes do ciclo.
Ao longo do ano, a programação distribui-se por vários momentos que cruzam diferentes períodos históricos e abordagens musicais. Parte dos concertos inspira-se na figura de D. João VI, assinalando os 200 anos da sua morte, e explora a relação entre Portugal e o Brasil.
«Vamos ter concertos mais relacionados com o período de vida de D. João VI (…) mas também contemporâneos», refere Ana Saraiva, apontando para uma programação que combina repertório histórico com leituras atuais
Essa diversidade inclui propostas centradas em géneros como o choro, evidenciando o diálogo cultural luso-brasileiro que atravessa a temporada.
Uma tradição que procura reinventar-se
As temporadas de concertos no Paço Ducal tornaram-se, ao longo dos anos, uma referência cultural em Vila Viçosa. Realizados, em regra, mensalmente e com entrada gratuita, os concertos têm registado uma adesão consistente do público, frequentemente próxima da lotação máxima da capela.
Com cerca de uma centena de lugares, o espaço tem revelado limitações face à procura, o que reforça a pertinência da abertura a novos locais dentro do complexo do Paço.
A introdução do concerto nos jardins surge, assim, como uma resposta a essa realidade, mas também como uma forma de experimentar novos formatos e públicos, mantendo a ligação ao património e à história do lugar.
Entre a memória e a abertura ao presente
Apesar da inovação, a temporada não abandona o seu eixo central: a valorização do acervo musical da Fundação da Casa de Bragança e a relação histórica do Paço com a música.
A programação continua a refletir esse equilíbrio entre memória e criação, entre investigação e fruição. O ciclo de 2026 prolonga-se até dezembro, com um concerto de Natal a encerrar a temporada.
Pelo caminho, a música continuará a ocupar a capela — mas, este ano, também se estenderá ao exterior, numa tentativa de reconfigurar a forma como o público se relaciona com o espaço e com a programação cultural em Vila Viçosa.















