Depois de confirmado um novo serotipo do vírus da Língua Azul, a doença espalhou-se um pouco por todo o Alentejo.

Sem um número oficial exato de casos, pensa-se que esse número será muito superior ao registado. Mas afinal que doença é esta que está a assombrar várias explorações na região?
Com isso em mente, ODigital procurou uma resposta com o médico veterinário José Maria Perdigão que nos confirmou que a “culpa” de tudo isto é dos insetos.
A doença
«É uma doença que é transmitida por um vírus e o vírus é transmitido por um vetor, que é um inseto do género Culicoides», ou seja, uma espécie de mosquito, que sem ele «não há transmissão».
Segundo o médico veterinário, o que tem acontecido este ano deve-se ao facto do aparecimento do novo serotipo, o serotipo 3, «com o qual os nossos animais nunca tinham contactado», estando «virgens em anticorpos contra este tipo de doença».
Em relação aos sintomas, esta variante da Língua Azul provoca «inflamação das mucosas, inchaço, febres muito elevadas que muitas vezes levam também a abortos».
Para além disso, os animais «deixam de comer» devido ao inchaço na boca, febre e ainda pela «alguma inapetência» provocada também pela doença.
«De forma direta, acabam por morrer por não comerem. De forma indireta, acabam por morrer pela febre», acrescentou José Maria Perdigão.
Confessou também que já viu «animais a morrer, porque abortam e que não conseguem expulsar os fetos. Acabam por criar uma infeção tão grande que acabam por não sobreviver».
«Pervenção»
Sem uma «fórmula mágica» para resolver esta situação, o médico veterinário deixa um curto, mas complexo conselho: «A prevenção».
«Temos de controlar os insetos com inseticidas aprovados para utilização animal. Quando tiverem animais que achem que têm a língua azul, contactem o médico veterinário responsável da exploração. Ele dirá o que é que acha que é mais adequado», destacou.
«Se não houver inseto, não há transmissão do vírus. Tanto que a doença para nos meses mais frios, por inatividade», acrescentou ainda.

Propagação
José Maria Perdigão sublinhou também que este vírus afeta principalmente o gado ovino, mas «também pode afetar caprinos e bovinos» e que já há explorações destes tipos de gado «a queixar-se».
Admitiu que será difícil de controlar, já que «eliminar os insetos é completamente impossível» e que há que «esperar que venha um tempo mais frio e menos favorável à multiplicação dos insetos».
«Acho que enquanto não mudar o tempo, não vimos livres disto», complementou o médico veterinário, vincando ainda a prevenção, porque ao estar «mais em cima dos animais e tratar precocemente os sintomas» será mais fácil de «evitar maiores perdas».
Questionado se há risco de poder contagiar um ser humano, frisou que, pelas «evidências científicas que temos ao dia de hoje», essa é uma hipótese que «não se pondera» e que nem sequer «há casos descritos».
«Das informações que temos, esta doença não é uma zoonose, ou seja, não é uma doença que passa dos animais para as pessoas», revelou.
Perdas económicas

Em relação a perdas económicas, o doutor afirmou que «não se deve só a mortalidade dos animais», mas também ao rendimento que se perde «devido aos abortos».
«Eu como produtor, é uma tristeza. Tinha programado ter pelo menos 100 borregos para vender no Natal e só tenho lá meia dúzia para amostra. Estou desolado», confessou.
Já como médico veterinário, «sinto-me completamente impotente, ultrapassado pela situação, porque não consigo ajudar mais».
Mais perto do terreno e em maior contacto com os produtores, o doutor confidenciou-nos que as pessoas se sentem «desanimadas, desacompanhadas e isoladas» pela complexidade no controlo da doença.
«Podemos controlar alguns sintomas, mas não podemos parar uma doença que afeta aos animais e que nos deixa incapacitados, às vezes, de um dia para o outro», completou.
Mesmo que haja «por aí muita especulação», José Maria Perdigão reforçou que «não há um tratamento para esta doença», mas que «felizmente» não há contágio de um animal doente para outro saudável.
«Se não houver um inseto a propagar a doença, até podem estar a beber da mesma água que não passa de uma para a outra, senão podíamos dizer adeus à população de ovelhas no Alentejo e tínhamos de importar», atirou.
Ação das entidades
Já no que toca às entidades, o médico veterinário apelou ao registo dos casos junto das respetivas organizações de agricultores com o objetivo de «reunir o máximo de informação possível».
«Estão a pedir aos médicos veterinários e aos produtores para relatarem o máximo de casos que eles achem possíveis, porque a doença, neste momento, oficialmente, está a subdiagnosticada», sublinhou.
Trata-se de um «esforço» no registo para que as organizações possam «falar com as entidades governamentais e expor o problema com a real dimensão que tem».
«Há muitos mais casos do que os que estão reportados. Para as entidades oficiais, é um problema que afeta meia dúzia de explorações e esse não é o problema real», complementou.
O veterinário alertou ainda que «é difícil justificar a canalização de verbas» para um problema que «oficialmente é pequeno, apesar de na realidade ser enorme».















