A operação de segurança rodoviária da Páscoa terminou com 20 mortos, 53 feridos graves e 2.602 acidentes nas estradas portuguesas, um balanço que, apesar de menos ocorrências do que no ano passado, revela um agravamento da gravidade dos sinistros.
Os dados das forças de segurança mostram ainda milhares de infrações associadas a comportamentos de risco: 3.083 casos de excesso de velocidade e 692 detenções por condução com álcool acima do limite criminal (1,2 g/l), confirmando a persistência dos principais fatores de sinistralidade.
Perante este cenário, a presidente da Associação para a Promoção de uma Cultura de Segurança Rodoviária (GARE), Filomena Araújo, em delcarações ao jornal ODigital.pt, considera que os números não surpreendem e expõem um problema estrutural que continua por resolver.
Mais mortos com menos acidentes: um sinal de agravamento
Embora o número total de acidentes tenha diminuído face ao período homólogo, o aumento das vítimas mortais levanta preocupações sobre a eficácia das medidas de prevenção.
Para Filomena Araújo, o padrão repete-se há décadas: “Nada que não se estivesse à espera. Os números da sinistralidade têm sido sempre muito altos em Portugal”.
A responsável sublinha que o impacto real poderá ainda ser superior, tendo em conta a evolução clínica dos feridos graves: “Neste momento temos 20 mortos neste curto período, mas esse número vai aumentar, vamos ter cerca de 25”.
Álcool e velocidade continuam a marcar a sinistralidade
Os dados da fiscalização reforçam a centralidade de dois fatores críticos: o consumo de álcool e o excesso de velocidade.
“O álcool continua a ser aceite culturalmente na nossa sociedade”, afirma a presidente da GARE, apontando para uma normalização social do risco. Já a velocidade mantém-se como comportamento dominante: “A velocidade é um sinal de virilidade”.
A combinação destes fatores ajuda a explicar não apenas o número de acidentes, mas sobretudo a sua gravidade.
“Uma epidemia silenciosa” que continua a ser desvalorizada
Filomena Araújo vai mais longe e classifica a sinistralidade rodoviária como um problema de saúde pública negligenciado.
“Estamos perante uma catástrofe, uma epidemia silenciosa”, afirma, recordando que, nas últimas décadas, morreram dezenas de milhares de pessoas nas estradas portuguesas.
A responsável critica a falta de reação proporcional à dimensão do problema, defendendo que o país continua a encarar estes números com excessiva normalidade.
Campanhas pontuais não chegam: É preciso educação contínua
Outro dos pontos críticos apontados pela especialista é a abordagem à prevenção, ainda demasiado centrada em campanhas sazonais.
“Não basta fazer campanhas no Natal, Páscoa ou verão. Tem que haver educação para a segurança rodoviária continuada no tempo”, defende.
A responsável sublinha a necessidade de intervenções específicas dirigidas a diferentes grupos de risco, incluindo jovens, profissionais e população idosa, bem como um maior envolvimento das escolas e das autarquias.
Falta de estratégia e resposta coordenada
A presidente da GARE aponta ainda lacunas estruturais nas políticas públicas, desde a ausência de um plano de ação eficaz até à falta de apoio a iniciativas da sociedade civil.
“Estamos a dourar a pílula e a não considerar isto como um grande problema de saúde pública”, afirma, defendendo uma resposta mais consistente e articulada entre instituições.
Fiscalização intensiva, mas sem mudança estrutural
Apesar do elevado número de operações e infrações registadas, os resultados finais levantam dúvidas sobre o impacto real da fiscalização na redução da sinistralidade.
Para Filomena Araújo, o caminho passa por uma combinação de medidas: reforço da fiscalização, cumprimento efetivo das regras e, sobretudo, mudança de comportamentos.
“Mais do que agravar penas, é preciso fiscalizar continuadamente e educar”, conclui.















