Beringel volta a receber, entre 27 e 29 de março, mais uma edição dos “Sabores no Barro”, iniciativa que cruza gastronomia, música e olaria, mas que, segundo o presidente da Junta de Freguesia, Vítor Besugo, representa sobretudo um projeto de preservação cultural e identitária.
A decorrer há 12 anos, o evento surgiu num contexto em que a tradição do barro estava em declínio. «A olaria estava em decadência pura», afirmou o autarca, recordando que «já ninguém queria trabalhar no barro» e que a atividade enfrentava falta de procura e reconhecimento .
Da decadência à recuperação de um ofício
A criação dos “Sabores no Barro” coincidiu com uma estratégia mais ampla de valorização da olaria local. Desde então, a freguesia tem apostado na promoção da atividade em feiras, eventos e iniciativas culturais, com o objetivo de reposicionar o barro como elemento central da identidade de Beringel.
Segundo Vítor Besugo, os resultados começam a ser visíveis. «Neste momento o mestre já trabalha mais, já tem um aprendiz e as suas talhas são procuradas em todo o lado», referiu, acrescentando que os próprios artesãos passaram a assumir um novo estatuto social, sendo hoje «reconhecidos por toda a gente» .
A dinâmica estendeu-se a outras áreas, com o surgimento de novas atividades ligadas ao barro, desde a produção de tijolo tradicional à abertura de espaços de artesanato, contribuindo para uma reativação económica associada à tradição.
Um evento que é o culminar de um ano de trabalho
Para o autarca, os “Sabores no Barro” representam apenas a face mais visível de um trabalho contínuo ao longo do ano. «Os Sabores no Barro são o culminar de um ano de trabalho», explicou, sublinhando a participação da freguesia em diversas iniciativas de promoção da olaria a nível nacional .
Esse esforço tem como objetivo reforçar a associação entre o território e o barro. «Queremos que as pessoas, quando pensem em barro, se lembrem logo de Beringel», afirmou.
Transmissão de saber entre gerações
A componente pedagógica é outro dos eixos do evento, com destaque para as atividades dirigidas às escolas. Nos dias que antecedem o programa principal, mestres oleiros contactam com os alunos, transmitindo técnicas e conhecimentos associados à olaria.
«É a passagem de testemunho dos mais velhos para os mais novos», referiu Vítor Besugo, defendendo que a continuidade da tradição depende da ligação às novas gerações .
Esta preocupação estende-se também ao Congresso dos Oleiros do Sul, que reúne profissionais, investigadores e estudantes, promovendo a partilha de conhecimento e a reflexão sobre o futuro da atividade.
Entre tradição e programação cultural
Ao longo dos três dias, o evento integra também uma dimensão cultural e recreativa, com espaços dedicados à gastronomia, ao cante alentejano e à música.
Na Tenda dos Sabores, associações locais confecionam pratos servidos em loiça de barro, recuperando práticas antigas. «Será tudo servido em loiça de barro para que as pessoas possam provar estas iguarias como era antigamente», explicou o presidente da Junta .
Paralelamente, o espaço “Terras de Barro” permite o contacto direto com o processo de produção, incluindo a utilização de roda de oleiro por visitantes, numa lógica de aproximação entre público e artesãos.
“Beringel é terras de barro”
Mais do que um evento, os “Sabores no Barro” assumem-se como uma afirmação identitária. «Beringel é terras de barro», sintetizou Vítor Besugo, apontando para a crescente presença de elementos em barro no espaço público e privado da freguesia .
O autarca considera que um dos principais objetivos está a ser alcançado: «Queremos que esta tradição não acabe».
Com entrada livre, a iniciativa decorre entre sexta-feira e domingo, reunindo artistas, artesãos e visitantes num ambiente de proximidade. O convite, segundo o presidente da Junta, é direto: «Quem vem cá quer sempre voltar» .















