A região do Alentejo tem registado uma «grande prevalência de casos» de uso ilegal de venenos, segundo relatório da Vulture Conservation Foundation.
Segundo o documento que ODigital teve acesso, foram registados 84 casos de suspeita de envenenamento pela Guarda Nacional Republicana, em Portugal. Deste número, 43% (36) foram registados nos distritos de Évora e Beja.

«Só no distrito de Beja foram 28 casos, um terço de todos os casos registados no país», afirmou Milene Matos, responsável da fundação, em declarações ao nosso jornal.
Revelou também que, nestes dois distritos, morreram 55 animais, 23 dos quais pertencentes a espécies protegidas e em vias de extinção (16 milhafres-reais, 5 águias-imperiais e 2 abutres-pretos).
No caso dos abutres, a também coordenadora do projeto “LIFE Aegypius Return” destacou que se conheciam na região 20 indivíduos reprodutores e que a morte desses dois animais, «se assumirmos que eram aves provenientes da região», pode-se ter «perdido 10% da população reprodutora da espécie no sul do país».
Milene Matos frisou que «podem ter ocorrido muito mais destes casos», mas que poderão não ter sido «detetados», ou terem sido «registados, por exemplo, por outra entidade que não a GNR»: «Infelizmente no Alentejo têm sido registados muitos casos, sem nenhuma condenação pela justiça».
Sublinhou ainda que, principalmente no distrito de Beja, este “alarme” já se regista «há mais de dez anos»: «Impossível saber exatamente o porquê»
Dados estes que representam que «as comunidades ainda não estão devidamente sensibilizadas para as consequências destes atos e para a gravidade destes crimes», segundo a responsável da fundação.
«Uma punição exemplar, conforme previsto na lei, dos responsáveis identificados em casos que são devidamente instruídos e comprovados seria essencial para dissuadir este tipo de práticas», acrescentou.
Milene Matos vincou também que estas circunstâncias são «preocupantes para a vida selvagem, para os animais domésticos, mas também para as pessoas», pois pela via da «contaminação indireta» como pela água, solos ou alimentos, quer pela exposição mais direta.
«Por exemplo, uma criança a brincar em meio rural pode inadvertidamente ingerir um isco envenenado e morrer», referiu.
Segundo a responsável pela fundação, considera-se uso ilegal de veneno sempre que a substância é utilizada «de forma não legal para controlar (matar) predadores carnívoros como lobos, raposas, ginetas ou cães errantes, sobretudo em áreas rurais e no contexto das atividades cinegéticas ou agropecuárias».
São também utilizadas «de forma recorrente e intencional em situações de conflitos locais (como desentendimentos entre vizinhos), ou de forma negligente/intencional no âmbito da agricultura ou silvicultura».
Poderão ser «substâncias proibidas» como a estricnina e que poderão causar a «a morte de animais selvagens, mas também domésticos e até pessoas». «Os problemas podem ser diversos e de maior ou menor gravidade, consoante a substância e a dose ingerida», adicionou.
Se a dose não for letal, pode causar hemorragias ou lesões em órgãos vitais, como o fígado ou os rins. Sintomas mais ligeiros incluem desorientação, vómitos, dificuldade em respirar, desmaios, diarreia.
Para além do desaparecimento de indivíduos, esta prática pode causar também «contaminação ambiental, o que pode também causar efeitos perigosos para os humanos».
«A morte de qualquer indivíduo tem consequências graves na conservação dessas espécies», destacou, concluindo que «mesmo que os animais sejam tratados e recuperados, podem tornar-se doentes crónicos, incapazes de viver autonomamente em meio selvagem, reproduzir-se e contribuir para a continuação da sua espécie».















