O destino turístico Alentejo registou, em 2024, o melhor ano de sempre no que a turismo diz respeito.
Neste contexto, foi ultrapassada a fasquia das 3,2 milhões de dormidas, registado um crescimento de 12% dos proveitos, face a 2023, e ainda o melhor resultado das cinco regiões turísticas de Portugal Continental.
Responsáveis? Há muitos, mas agora contamos a história do Diretor Executivo da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA), António Lacerda, «um paraquedista que caiu no Alentejo há 43 anos» e que quando chegou «teve uma espécie de segundo nascimento».
A marcar presença na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) 2025, ODigital.pt conseguiu chegar à conversa com o diretor executivo, entre negócios e investidores e uma agenda apertada.
«Senti-me bem e em casa»
No princípio da década de 80, António Lacerda «descobriu uma terra e uma gente», mas também «descobriu que se apaixonou e que era aqui que queria viver»: «Senti-me bem e em casa».
Prontamente descobriu que o Turismo era o que o ia «fixar» à região, mas também prontamente descobriu que o Turismo ia ser «dominante na minha vida».
Foi membro da Comissão Regional da Região de Turismo da Costa Azul, entidade que compreendia todo o litoral alentejano e algumas zonas de Setúbal, desde 1985, onde “geria” a parte do Alentejo.
Já nos anos 90, «começámos a ter um trabalho e coordenação de fazer com que o Alentejo passasse a ser comunicado de uma forma só, como se fosse uma realidade única». «Houve a necessidade de tornar a parceria entre as quatro regiões de turismo em algo instituído. Não podia continuar a ser uma parceria informal», acrescentou.
Nesse momento, António Lacerda foi convidado a fazer parte da direção e, quando o «governo decidiu criar um modelo de organização turística para o país» e aproveitar a associação que presidia até então, tornou-se Diretor Executivo da ARPTA.
«Uma ‘mão lava a outra’»
Mas afinal, o que faz um diretor executivo da ARPTA? Simples, «trazer turistas», mas não é assim tão fácil.
«Para trazer turistas, temos de trazer outras coisas também. O turista procura um determinado tipo de produtos», sublinhou, dizendo ainda que «o Alentejo para vender os seus produtos, nós temos de ajudar».
Desta forma, é dada «alguma orientação» ao investidor, como «onde construir, onde fazer, que tipo de hotel é que a região está a necessitar»
«No fundo, uma ‘mão lava a outra’. Nós fazemos com que o investidor tenha mais sucesso e o sucesso dele é o nosso sucesso», referiu.
Contudo, António Lacerda, mesmo querendo «mais turistas no Alentejo o ano inteiro», quer que os mesmos «nos respeitem, que olhem para o Alentejo como nós olhamos, que não estraguem», numa tentativa de «preservar a identidade».
«Temos a vida muito simplificada»
Mas este esforço não se cinge apenas ao território. «Isto significa levar, por exemplo, o cante a Roma, como levámos em 2024. Significa levar o cante a Paris. Significa levar os festivais internacionais de música como a serem conhecidos lá fora».
«Claro que vamos ter uma oportunidade excelente para poder mostrar essa diversidade cultural que o Alentejo possui, que é Évora Capital Europeia da Cultura», relembrou o diretor executivo, deixando ainda a nota de que «já há gente que nos está a procurar».
Questionado acerca da dificuldade de promover o destino, António Lacerda atirou que «temos a vida muito simplificada», uma vez que «os recursos que o Alentejo tem são de tal forma diferenciadores que basta mostrar essa diferença».
«Onde é que se podem ver golfinhos em Portugal Continental? No Sado e no Algarve. Onde é que nós temos uma paisagem tão humanizada, mas tão harmoniosa como o montado? Os sobreiros foram plantados, mas resultou em equilíbrio ambiental tão bom, que é muito fácil levar lá fora», complementou.
Assim, a «preocupação» é conseguir «encontrar o cliente que seja o cliente respeitador e que venha num momento em que nós precisamos que ele venha».
«Não há varinhas mágicas»
Uma “simples” tarefa, que acaba por ser «cansativa», pois durante uma feira como a BTL, a título de exemplo, «acabamos a comunicar em cinco idiomas ao mesmo tempo», já que «os parceiros vão se juntado e tão depressa estamos a comunicar em espanhol, como em francês, como em inglês».
«É preciso estar sempre atento a tudo isso e conferir, a cada um destes nossos interlocutores, o reconhecimento e a atenção que eles merecem», vincou, afirmando ainda que «só assim conseguimos procura para todas as fases do ano».
A «diferenciação de mercados» torna-se assim essencial neste contexto, mas ainda assim, «não é fácil encontrar esse cliente»: «É tentativa e erro, é insistência, porque não há varinhas mágicas».
São estes os parceiros que «conseguem fazer do Alentejo aquilo que a região é hoje, em que 17% da receita é o turismo que lha dá», com uma receita «superior a três mil milhões de euros, só de proveitos da hotelaria».
«Se considerarmos que os proveitos da hotelaria não são mais do que 24% dos gastos totais dos turistas no destino, veja-se lá o poder que o turismo tem de induzir riqueza na região», acrescentou.
«Tenho atrás de mim uma mulher fantástica»
E a vida pessoal, como fica? «É difícil conjugar, com muitas viagens», mas como toda história, é preciso um herói, ou neste caso, uma «heroína».
«Numa fase inicial, com duas crianças pequenas, tive uma mulher fantástica que aguentou todas as minhas ausências. Conseguiu que elas crescessem e se desenvolvessem de uma forma muito saudável», realçou António Lacerda
«Tenho atrás de mim uma mulher fantástica que aguenta isto tudo. Vê o marido chegar num dia e partir no outro. Às vezes vem ter comigo ao aeroporto para me trazer uma mala de roupa lavada e eu entrego-lhe a mala da roupa suja», disse ainda.
O diretor executivo confessou ainda que «desde o dia 6 de janeiro, dormi seis noites em casa», mas que «tem de ser assim e assim vai ter de continuar».
«Não há gente insubstituível»
Com umas eleições para presidência da agência regional à porta, marcadas para o dia 31 deste mês, o diretor executivo sublinhou que está «disponível para tudo», uma vez que o seu cargo «é um lugar de nomeação».
«Quem vier, se quiser contar comigo, sabe que pode. Se achar que alguém poderá exercer esta função de uma forma melhor, eu agradeço que vá buscar esse recurso», acrescentou, referindo ainda que «se eu posso ser útil para o Alentejo, também devo entender que há outros que podem ser ainda mais úteis do que eu. Se essa troca for feita a favor do Alentejo, eu fico satisfeito».
Concordando que «não há gente insubstituível», António Lacerda vincou que «uns olhos mais frescos podem ver melhor», que os do próprio, que contam já com 43 anos de serviço: «Estão um bocadinho cansados».
Com essa possibilidade em aberto, o diretor executivo recordará a sua trajetória «com muito gosto e com muita felicidade».
«Acho que posso dizer uma coisa que nem toda a gente, infelizmente, pode. Pagam me para fazer o que eu gosto», concluiu.















