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Associações ciganas querem anticiganismo reconhecido como racismo

As associações ciganas não vão desistir até que o anticiganismo seja considerado uma forma de racismo, garantiu o vice-presidente da Associação Letras Nómadas, que diz sentir todos os dias a discriminação, a desconfiança e o escrutínio no espaço público.

Hoje assinala-se o Dia Internacional das Pessoas Ciganas, uma data criada no Primeiro Congresso Mundial Romani, em 1971, para promover a inclusão dos membros da comunidade cigana na sociedade, dando a conhecer a sua cultura e história.

Em declarações à agência Lusa, Bruno Gonçalves relatou que em 49 anos de vida nunca sentiu tanto racismo como hoje em dia, apontando que existe “provocação autêntica”.

“Eu sinto na pele todos os dias quando vou a um supermercado e sinto na pele que o segurança só me falta levar o cesto e ajudar-me a carregar as compras”, denunciou, afirmando sentir que existe “um clima de desconfiança, um escrutínio diário”.

“Não olham para o Bruno enquanto pessoa, o cidadão licenciado, o cidadão que já foi autarca. Primeiramente, olham para mim como um cigano, com todos os estereótipos associados”, acrescentou, garantindo que, apesar de cansado, não vai desistir de lutar.

Susana Silveira, fundadora da Associação Costume Colossal, que trabalha pela integração das comunidades ciganas, contou o seu caso e de como foi despedida num emprego onde esteve depois de terem percebido que era cigana.

“Afinal alguma coisa está errada e não eu que não me quero integrar. Será que não é antes esta sociedade que não me quer receber?”, questionou, frisando que “há bons e maus em todo o lado”, tanto entre os portugueses ciganos, como entre os portugueses que não são ciganos.

Na opinião desta ativista, a falta de habitação e a dificuldade em encontrar emprego são os principais problemas que afetam a comunidade cigana. Apesar de admitir que são transversais à restante sociedade, salientou que entre os ciganos esses problemas são agravados pela discriminação e pelo racismo.

Opinião partilhada por Bruno Oliveira, fundador da Associação Intercultural Cigana (Incig), para quem o acesso à habitação e ao emprego e os discursos de ódio estão no topo da lista.

“Mesmo quem tenha condições de alugar uma habitação ou comprar uma casa, há sempre a parte da discriminação associada à comunidade cigana, ou seja, não basta a situação socioeconómica em que as comunidades ciganas vivem, em termos de pobreza”, apontou.

Segundo Bruno Oliveira, o mesmo se passa em relação ao emprego, “em que muitas pessoas [ciganas] têm que ocultar a sua identidade cultural para que não sejam despedidas”.

Acrescentou que as dificuldades no acesso ao emprego e à habitação potenciam situações de exclusão, às quais se somam problemas de saúde que são, em parte, a explicação para que os ciganos tenham uma esperança média de vida inferior à da comunidade maioritária.

De acordo com o vice-presidente da Associação Letras Nómadas, e tendo por base estudos da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), “uma portuguesa cigana vive em média menos 12 anos do que uma mulher da sociedade maioritária”.

Por outro lado, sobre o problema da habitação, Bruno Oliveira referiu que “há estudos que dizem que 33% das comunidades ciganas que vivem em tendas e barracas” em Portugal.

“Outro condicionamento que temos é que se tentamos levar isto a um tribunal e provar que esta pessoa foi vítima de um ato racista, isso não existe, não conseguimos provar”, salientou Susana Silveira.

Bruno Oliveira apontou que em Espanha vão ser comemorados os 600 anos da chegada ao território dos primeiros cidadãos ciganos, salientando como em Portugal a realidade é bastante diferente, apontando que o anticiganismo se normalizou.

Defendeu que antes era um sentimento que “muitas das vezes estava adormecido”, enquanto hoje a realidade traz uma normalização desse sentimento e um “apedrejamento diário que se faz através de um partido político às comunidades ciganas”.

“Já não há vergonha social de colocar todos no mesmo saco e de generalizar. E tem sido muito fácil porque se vai normalizando o anticiganismo no nosso território”, denunciou.

Defendeu, por isso, que se tomem medidas, nomeadamente pela inclusão do anticiganismo no enquadramento jurídico, uma vez que “é um crime” e “uma forma de racismo que está a ser propagada de uma forma muito forte”, que “tem de ser punida”.

“Não vamos desistir”, garantiu.

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