Há «duas vezes mais» diagnósticos de depressão e ansiedade em mulheres, comparativamente com o sexo masculino.
A declaração é do presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Miguel Coutinho, ao ODigital.pt, sublinhando que estes dados são «bastante relevantes» e que «estão muito relacionados com um conjunto de causas multifatoriais».
A primeira que referiu trata-se de «fatores mais psicossociais, socioeconómicos e demográficos», como «a desigualdade salarial, a pobreza, a sobrecarga de trabalho, as experiências de violência». Fatores estes que se acumulam ao longo do tempo e «podem provocar dificuldades no funcionamento psicológico, tendo um impacto bastante significativo na saúde mental da mulher».
Para além destes, há ainda a «expectativa que a sociedade tem em relação à mulher», já que «muitas delas são cuidadoras, quer primárias, quer profissionais».
«E, normalmente, a cuidar dos filhos, do lar e, quando têm familiares a necessitar de cuidados, muitas vezes acabam por ser as principais cuidadoras informais», acrescentou.
Esta é uma «característica muito indissociável da condição de ser mulher», até porque «acaba por ter de desempenhar múltiplos papéis dentro da própria família, e depois tem ainda um papel externo, que é o trabalho, onde quer ser competente, reconhecida e valorizada».
«Este ‘multitasking’ constante acaba por criar aqui uma pressão, que leva à sobrecarga e depois ao stress», complementou o presidente.
Miguel Coutinho destacou ainda a importância da «socialização das emoções», ou seja, «à mulher é-lhe mais permitido demonstrar emoções, de certa forma».
Este dado pode levar a mais diagnósticos, uma vez que «pode haver aqui uma maior procura de cuidados de saúde»: «Às vezes, é mais fácil procurar ajuda no feminino».
Por outro lado, pode também levar a «sugerir alguma desvalorização».
Todos estes fatores «vulnerabilizam a mulher, do ponto de vista psicossocial, para uma condição de maior pressão e mais ansiedade».
O presidente da delegação realçou assim que a «educação e a consciencialização para estas desigualdades de género» são «extremamente importantes», assim como o «favorecimento do crescimento ou a implementação de redes de suporte e apoio».
Ponto de vista pessoal
Miguel Coutinho, enquanto psicólogo, confessou que «provavelmente» tem mais mulheres em consulta do que homens, mas que, ao longo dos anos, essa diferença «tem-se esbatido», principalmente «no pós-pandemia».
«Potenciou a vulnerabilidade que, em algumas pessoas, já era existente e criou vulnerabilidades que não existiam», acrescentou, dizendo ainda que «houve aqui uma situação de crescimento, conhecimento e sensibilização da população para procurar ajuda»















