O jornalista e autor João Fernando Ramos destacou este fim de semana a proximidade criada entre escritores e leitores durante a primeira edição do Comboio Literário, iniciativa que ligou Lisboa, Évora e Vila Viçosa.
O autor participou nas sessões realizadas no âmbito da viagem promovida pela LeYa e pela CP – Comboios de Portugal, considerando que a experiência permitiu recuperar um contacto humano cada vez menos frequente.
«Vivemos agarrados aos telefones. Tudo é distante, tudo está à distância de um clique. Podermos abraçar-nos, tocar-nos é sempre uma outra experiência», afirmou.
Segundo João Fernando Ramos, a viagem decorreu num ambiente informal e próximo entre autores e leitores.
«Viemos num comboio histórico e muito confortável, mas que veio suficientemente lento para podermos trocar olhares, histórias e dar alguns autógrafos», referiu.
O jornalista considerou que o contacto direto permitiu aos leitores conhecerem os escritores para além da imagem pública habitual.
«As pessoas não nos conhecem. No meu caso, conhecem-me mais pela televisão e pelas notícias. Muitas nem sequer sabiam que eu escrevia também», afirmou.
Da objetividade do jornalismo à liberdade da literatura
Durante a iniciativa, João Fernando Ramos falou também sobre a diferença entre o trabalho jornalístico e a escrita literária, áreas onde mantém atividade paralela.
O autor explicou que a literatura lhe permite explorar caminhos impossíveis no exercício do jornalismo.
«Nós, em televisão, escrevemos com meia dúzia de parágrafos e com uma linguagem muito objectiva. Na literatura temos liberdade total para criar», afirmou.
Os dois romances publicados pelo jornalista centram-se em acontecimentos históricos, cruzando factos reais com elementos ficcionados.
Ao referir o livro “A Paixão do Infante”, João Fernando Ramos explicou que procurou explorar episódios menos conhecidos da história portuguesa ligados ao Infante D. Henrique.
«Nós não podemos fazer isso no jornalismo, temos de ser completamente objectivos. Aqui é a nossa imaginação», referiu.
O autor revelou ainda que alguns dos episódios retratados no romance passam por Évora, cidade onde decorreu parte da programação do Comboio Literário.
“Há sempre um outro lado”
João Fernando Ramos reconheceu que muitos leitores ficam surpreendidos quando descobrem o lado literário de um jornalista habitualmente associado à televisão e à informação diária.
«Habituam-se a ver-nos ali muito rigorosos, de fato e gravata, e dizem: “Ah, que bela imaginação”», afirmou.
Questionado sobre essa dualidade entre jornalismo e literatura, o autor respondeu de forma direta:
«Há sempre um outro lado.»
















