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Portugal, a obra longa de um povo

O 10 de Junho é o dia em que se celebra a memória dos portugueses de todas as eras da Portugalidade, e essa memória é tão ancestral e grande que só cabe em séculos. Portugal só pode ser plenamente apreciado na perspetiva longa, através do desenho de quase um milénio de continuidade.

O Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas celebra uma obra longa e inacabada. A construção paciente de Portugal pelo povo português, em cada época e em cada geração.

Não há um “instante fundador” puro, mas existem momentos em que uma linha de fundo se torna mais visível e vincada. A Batalha de São Mamede, a consolidação do território, a abertura ao Atlântico e as grandes ruturas políticas dos séculos XIX e XX são episódios da persistência de um país e do seu povo em construir o seu futuro e superar as dificuldades.

Portugal é uma construção coletiva realizada por gerações sucessivas de portugueses de todas as condições e ofícios, de lavradores e artesãos, marinheiros e comerciantes, escrivães e doutores de lei, emigrantes anónimos e soldados sem estátua. Todos eles, em cada época, fizeram Portugal à medida das suas possibilidades e dos seus limites.

O país não foi feito apenas em batalhas e tratados, mas também em séculos de vida comum, em decisões pequenas e repetidas de permanecer, de recomeçar e de transmitir um legado. Esse legado é designado por cultura portuguesa.

Se quisermos sintetizar historiograficamente a identidade portuguesa, podemos fazê-lo em três planos: território, língua e ligação ao mundo.

O território, porque Portugal se define relativamente cedo e se mantém surpreendentemente estável, oferecendo, geração após geração, um cenário reconhecível onde a vida coletiva se foi desenrolando.

A língua, porque se torna não apenas instrumento jurídico e religioso, mas também espaço de criação literária, de debate intelectual e de transmissão entre pessoas, desde a lírica medieval aos romances contemporâneos, das cartas de mareantes às mensagens dos emigrantes, dos poemas de Camões, ao de Pessoa.

E o mundo, porque dificilmente se entende Portugal sem a sua vocação de circulação. Nunca fomos apenas um pequeno país pequeno ou só europeu. Projetámo-nos no Atlântico, fomos e voltámos, levámos a língua a outros continentes e trouxemos de volta influências, pessoas, hábitos e sonoridades.

Cada geração reinterpretou essa abertura à sua maneira, do marinheiro quinhentista ao emigrante do século XX, do estudante Erasmus ao trabalhador que hoje parte para outro país europeu. Somos um país aberto ao mundo, como o fomos ao longo da nossa história.

Mas também não somos uma tela cultural em branco. Temos um passado vasto e um legado profundamente enraizado nos nossos valores culturais. Somos quem somos porque gerações sucessivas de portugueses foram dando espessura e forma a esta continuidade que chamamos Portugal.

Uma atitude equilibrada perante a história exige reconhecer todo o percurso, incluindo aqueles aspetos que, aos nossos olhos de hoje, podem não parecer dignos de celebração. A maturidade histórica não consiste em negar o passado, mas em compreendê-lo na sua complexidade.

Ao mesmo tempo, houve momentos relevantes em que Portugal esteve na vanguarda de transformações que só mais tarde ocorreriam noutros países.

Pensemos, por exemplo, na abolição progressiva da escravatura ou na abolição da pena de morte para crimes civis. Não foram decisões lineares, porque nada na história é simples. Ainda assim, traduziram uma vontade de caminhar no sentido de um maior respeito pela dignidade humana. Esses momentos não apagam o que de injusto se praticou, mas mostram um país capaz de se corrigir, geração após geração, e de procurar elevar-se face aos padrões do seu tempo.

É legítimo, e até necessário, termos, orgulho nisso.

O 10 de Junho convida-nos, por isso, a um exercício de memória e de afirmação e pertença a um país que construiu uma história notável e uma paisagem humana na qual nos reconhecemos diariamente.

Quando celebramos Portugal neste dia, celebramos o português comum de todas as épocas. O camponês medieval e o operário fabril, o navegador e o ferroviário, a bordadeira da ilha e a médica do SNS, o emigrante que partiu sem saber se voltava e o jovem que hoje circula pela Europa e pelo Mundo como extensão natural da sua vida.

São eles que, em cada tempo, mantiveram viva esta comunidade histórica, preservando um modo de estar discreto, resiliente, capaz de sacrifício e aberto ao mundo, sem perder a ligação a uma das nações mais antigas do globo.

Saibamos cultivar um patriotismo refletido, que olha para a história com rigor e, ainda assim, conclui que Portugal é a longa construção do povo português, em cada tempo e em cada geração.

E, a cada 10 de Junho, vale a pena lembrarmo-nos disso e afirmar, sem embaraço, que somos cidadãos de um país de que vale a pena dizer bem.

Tenho orgulho nos quase 900 anos de história de Portugal, em todos os portugueses que nos souberam construir e em todos os que hoje continuam, com responsabilidade, a fazer Portugal maior.

Luís Nunes dos Santos

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