Celebramos hoje, em Évora, os 52 anos do 25 de Abril e 50 anos das primeiras eleições autárquicas democráticas.
Como alicerce da nossa vida em comum, da nossa liberdade e da nossa democracia plural. Abril é, ao mesmo tempo, memória, conquista e responsabilidade.
É memória do fim de uma ditadura longa, é conquista de uma democracia que nos devolveu a palavra e é responsabilidade de a honrarmos nas escolhas que fazemos, nas políticas que defendemos e na forma como habitamos o espaço público.
A história, com a sua obstinada teimosia, é o argumento mais sólido contra o populismo que se alimenta da agitação do presente e do esquecimento do passado.
Esse discurso, que insiste em proclamar que Portugal “nunca esteve tão mal”, trata cada dificuldade como se fosse uma tragédia inédita. Mas os factos desmentem essa narrativa. Basta olhar para a vida dos portugueses nos últimos cinquenta anos para perceber que a retórica da decadência não resiste à prova da memória.
Em 1974, Portugal era ainda um país de aldeias sem eletrificação, a precariedade das casas era regra e a mortalidade infantil elevada. O salário permitia uma sobrevivência austera.
As viagens de avião eram para as elites, a escolaridade mal chegava ao ciclo preparatório, o acesso à universidade era um privilégio de poucos e a saúde era inexistente em largas faixas do território.
Este era o país que Abril encontrou. Cinquenta e dois anos depois, o cenário é incomparável.
O SNS, apesar das suas crises, universalizou-se e transformou profundamente as condições de saúde.
A esperança média de vida subiu, a mortalidade infantil caiu para valores que nos colocam entre os melhores da Europa.
A escolaridade obrigatória passou para o 12.º ano, o número de estudantes universitários multiplicou-se, a taxa de analfabetismo desmoronou-se.
Onde antes havia estradas estreitas e perigosas, temos hoje milhares de quilómetros de autoestradas, ligações rápidas que aproximam regiões, oportunidades e pessoas.
A qualidade de vida medida no acesso a bens materiais, a eletrodomésticos, transportes e mobilidade, informação e cultura, saúde, educação e nível de vida é incomparavelmente superior relativamente à geração dos nossos pais ou avós.
O que era considerado um luxo é hoje de acesso generalizado.
Nada disto significa negar os problemas que enfrentamos. Significa, isso sim, recusar o mito favorito da cartilha populista de que “nunca estivemos tão mal”.
A memória histórica não serve para ocultar as dificuldades do presente, mas para impedir a instrumentalização do passado. Quem disser que nada melhorou ou que tudo está perdido nega as conquistas de várias gerações de portugueses.
Ao lembrarmos o 25 de Abril, lembramos também o 25 de Novembro, a estabilização democrática, o poder local, a Constituição e o percurso que nos trouxe até uma democracia liberal inserida na União Europeia, na NATO e no espaço atlântico.
A matriz do Partido Social Democrata, que aqui represento, afirma-se precisamente neste triplo compromisso com a liberdade política, com a justiça social e com uma vocação claramente europeia, ocidental e atlântica.
Abril não foi, para nós, o ponto de chegada de uma narrativa fechada, mas o ponto de partida de um país que se quis plural, aberto e em diálogo com o mundo.
Évora foi, e continua a ser, um palco privilegiado desta história. Nesta cidade, o peso da tradição e a densidade da memória sentem-se nos claustros, nas muralhas, nas praças, nas escolas, na Universidade, nos campos em volta.
Esse legado é inseparável das grandes opções estratégicas que o país tomou depois de Abril: a integração europeia, o compromisso atlântico, a economia social de mercado.
A democracia que hoje celebramos não é perfeita, mas é a melhor forma que encontrámos de resolver pacificamente os conflitos, de mediar interesses divergentes e de proteger os direitos de cada pessoa.
E foi feito através de partidos estruturados, de eleições livres, de uma imprensa plural, de uma justiça independente.
O PSD sempre se reconheceu nesta arquitectura: fomos e somos um partido reformista, que acredita numa economia aberta, numa sociedade de oportunidades, num Estado ao serviço das pessoas e não de projectos ideológicos fechados.
Ao celebrarmos Abril e o poder local em Évora, reafirmamos essa fidelidade à democracia representativa, ao Estado de direito e à moderação como método.
Vivemos, porém, tempos difíceis para as democracias liberais. Assistimos à emergência de discursos que trivializam a violência política, à tentação de reduzir a complexidade dos problemas.
Vemos também, na Europa e no mundo ocidental, a prova de que a liberdade nunca está garantida para sempre: guerras à porta da Europa, regimes autoritários que desafiam a ordem internacional, desinformação que corrói a confiança cívica.
O populismo prospera precisamente porque corta o fio da memória. O discurso que diz “nunca estivemos tão mal” alimenta-se do esquecimento do ponto de partida.
A política séria, em contrapartida, não nega os problemas atuais, mas reconhece-os à luz de uma trajetória longa, inscrita num processo histórico de melhoria concreta das condições de vida.
Enquanto social-democrata, vejo a liberdade e a justiça social como dois pilares que se reforçam.
Abril deu-nos o voto, a palavra, a associação, mas também nos convocou para reduzir desigualdades, aproximar o interior do litoral, garantir que ninguém fica excluído. O nosso compromisso com a economia de mercado é uma convicção de que a iniciativa de cada um criam riqueza, mas de que o Estado deve ser regulador e garante de que essa riqueza é posta ao serviço da coesão social.
Évora é também, por natureza e por vocação, uma cidade europeia.
A sua história está ligada ao Mediterrâneo e ao Atlântico, à circulação de ideias e de pessoas. Ao olharmos para o que a integração europeia significou para o nosso concelho e para o nosso distrito, percebemos o quanto Abril se prolongou em cada programa europeu, em cada investimento em infraestruturas, em cada projecto de cooperação.
A matriz europeísta e atlântica que defendemos implica responsabilidade: defender a paz através do direito internacional, cumprir os nossos compromissos de defesa no quadro da NATO, participar activamente na resposta às grandes transições, climática, digital, demográfica, que estão a moldar o nosso futuro.
Por isso, nesta sessão solene, é importante dizê-lo com clareza: Não há Abril contra a Europa, contra o Ocidente democrático ou contra a nossa inserção atlântica.
Há Abril graças à escolha que fizemos de estar do lado das democracias liberais, de partilhar soberania para ganhar influência, de assumir que a liberdade interna está ligada à segurança externa.
O PSD, desde a sua fundação, esteve nesse lado.
Mas Abril também se joga a uma escala mais próxima, mais concreta, mais quotidiana: na forma como gerimos o município, na qualidade dos serviços públicos locais, na transparência das decisões, na capacidade de ouvir os cidadãos.
Uma democracia madura constrói-se nas assembleias municipais, nas juntas de freguesia, nas associações locais, nas escolas, nos movimentos cívicos.
Enquanto eleito local, sinto de forma muito directa essa responsabilidade.
Évora enfrenta desafios concretos como o envelhecimento da população, a dificuldade em fixar jovens, a pressão sobre a habitação, a necessidade de valorizar o património sem o transformar num mero cenário turístico.
Acreditamos numa cidade que seja, ao mesmo tempo, guardiã do seu património e laboratório de inovação, que olhe para o seu passado com orgulho, mas que se recuse a viver apenas de memórias.
Queremos uma cidade em movimento, que se abre ao conhecimento, à ciência, à cultura contemporânea, que acolhe estudantes, investigadores, criadores.
Acreditamos na iniciativa privada, mas também na importância de um poder local forte, capaz de liderar, de articular, de planear.
Ao olharmos para o país a partir de Évora, percebemos melhor um dos grandes desafios que Abril nos deixou: o da coesão territorial.
O interior, o Alentejo e o distrito de Évora têm de ser parte de um projecto nacional de desenvolvimento equilibrado, de aproveitamento dos recursos, de fixação de população.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A democracia portuguesa já é adulta, atravessou crises económicas, casos e abusos que, por vezes, abalam a confiança dos cidadãos nas instituições.
Ser social-democrata hoje é reconhecer essas fragilidades e não fugir ao escrutínio. Mas é recusar a ideia de que tudo está perdido, de que “são todos iguais”, de que a solução está em destruir o que construímos depois de Abril.
A nossa resposta é outra. Mais transparência, mais responsabilidade, maior exigência, instituições mais fortes, cidadãos mais participativos.
Num tempo em que o espaço público é muitas vezes dominado pela indignação instantânea, é um dever de todos defender a moderação e o debate informado.
Não há populismo que resista à experiência vivida, à evidência de que a história tem sido, para os portugueses, uma estrada difícil, mas sempre ascendente.
É do reconhecimento honesto deste caminho, das suas vitórias e obstáculos ainda por vencer que deve nascer o debate político sério, livre da mentira e da manipulação.
Para o PSD, esta renovação passa por reforçar a confiança dos cidadãos nas instituições, por promover reformas que tornem o Estado mais leve e eficaz, por criar condições para que os nossos jovens não tenham de escolher entre sair de Évora ou resignar-se à falta de oportunidades.
A história é um registo contínuo. E o registo mostra que os últimos cinquenta e dois anos foram o período de maior e mais rápido crescimento coletivo da nossa história.
Estes anos, com todas as suas contradições, são a expressão maior da capacidade nacional de crescer e de transformar as realidades.
Quem disser o contrário não está a ler o passado, está a escrever um guião de manipulação política.
Neste 25 de Abril de 2026, aqui na Câmara Municipal de Évora, quero deixar três compromissos.
Primeiro, um compromisso com a memória: não banalizar a ditadura, não romantizar o autoritarismo, não esquecer a censura e a repressão.
Segundo, um compromisso com a democracia liberal: defender as instituições, reforçar a sua qualidade e recusar qualquer deriva que queira substituir a democracia representativa por aventuras e lideranças providenciais.
A democracia faz-se de regras, de limites, de contrapoderes, e é isso que garante a liberdade de cada um.
Terceiro, um compromisso com o futuro europeu, ocidental e atlântico de Portugal e de Évora:continuar a afirmar-nos como parte da comunidade de democracias investir na cooperação europeia e continuar a pensar Évora como cidade europeia no coração do Alentejo, aberta ao mundo e fiel às suas raízes.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Abril pertence a todos, mas não significa o mesmo para todos. Para mim, social-democrata, filho de uma geração que já nasceu em liberdade, Abril é um dever.
O dever de estar à altura do sacrifício dos que lutaram antes, o dever de não desperdiçar as oportunidades que nos foram dadas, o dever de deixar a quem vem depois um país mais livre, mais justo, mais coeso.
Évora, com a sua história e com os seus desafios, é um lugar privilegiado para renovar este compromisso.
Finalizo com uma nota pessoal: tenho um profundo orgulho nos portugueses e na forma como, ao longo destes 52 anos, souberam construir, passo a passo, a liberdade e o país em que hoje vivemos.
Que saibamos honrar a história de Portugal, dos nossos antepassados com políticas responsáveis, com uma cultura pública de moderação e diálogo, com uma prática diária de respeito pela pluralidade e pela dignidade de todos os portugueses.
Luís Nunes dos Santos
















