Reagan e Trump são, formalmente, do mesmo partido, mas pertencem a tradições políticas quase incompatíveis. Trump surge como um simulacro de presidente, alimentando o ressentimento social em vez de servir como referência de esperança para a sociedade, papel que Reagan desempenhou com distinção.
Ronald Reagan chegou à Casa Branca num período difícil, marcado pelas feridas ainda abertas da Guerra do Vietname e pela confrontação com o inimigo comunista e totalitário da União Soviética. Nesse contexto, apresentou um projeto de regeneração, ao recuperar a imagem da América, devolvendo aos Estados Unidos o papel de potência agregadora do Ocidente.
Do ponto de vista da cultura política Republicana, Reagan operou três movimentos decisivos. Primeiro, recompôs o triângulo clássico do conservadorismo americano. Liberdade económica, ordem social e força militar como garantia de paz.
Segundo, enquadrou o conflito com o comunismo nos seus próprios termos, o “império do mal”, mas a partir da arquitetura institucional com o Congresso, alianças diplomáticas e negociação com Gorbachev.
Terceiro, conduziu o Partido Republicano para um conservadorismo popular, ancorado no respeito pelas regras do jogo democrático.
Reagan agiu sempre como presidente de uma república constitucional, não como proprietário do regime. Teve a ambição de deixar uma América mais forte nunca quis transformar o cargo numa extensão permanente dos seus humores, mas não passa de um simulacro fraco e errático.
Onde Reagan mobilizou um conservadorismo de princípios para reforçar a confiança na democracia americana, Trump instrumentaliza fragmentos desse discurso para corroer precisamente essa confiança. O trumpismo não é o reaganismo atualizado, é, na verdade, a sua contrafação.
O “América primeiro” deixou de significar liderança responsável do mundo livre e passou a significar um vazio de direção militar e política. A crítica ao “big government” deixou de ser um argumento liberal clássico e converteu‑se em guerra aberta contra qualquer instituição que contradiga ou simplesmente não confirme a narrativa do líder, como os tribunais, imprensa e até programas de televisão de comédia.
A base social que em Reagan era um sujeito político, transformou-se numa plateia cativa, permanentemente excitada por um fluxo de indignações, medos e humilhações.
Se Reagan foi o presidente republicano que utilizou a retórica para consolidar instituições e alianças, Trump usa e abusa a da sua imagem como cenário descartável de um espetáculo centrado no “Eu”.
A genealogia do trumpismo encontra mais parentesco nas tradições populistas plebiscitárias do século XX do que na linha longa do constitucionalismo americano onde Reagan se inscreve.
Trump colocou em causa a integridade de eleições que não ganhou, transformou a imprensa num “inimigo do povo”, insinua conluios sistemáticos de juízes, funcionários e até militares. Ao fazê‑lo, mata a política.
Do ponto de vista do partido republicano, isto devia ser uma heresia. Tudo o que não serve o líder é suspeito, descartável ou traidor. Um conservador clássico teme o excesso de Estado, um trumpista teme o excesso de limites ao chefe, estando ele assim acima do próprio Estado.
Reagan viveu na dicotomia entre o mundo livre versus comunismo, mas dentro de uma linguagem que preservava o pluralismo interno. Democratas e Republicanos eram adversários domésticos, não inimigos internos. O “eles” estava do lado de lá do Muro de Berlim.
Trump deslocou o eixo da clivagem para dentro das suas fronteiras e para os seus aliados naturais.
A categoria de “fantoche” ganha densidade, porque Trump é uma caricatura amplificada em tempo real.
Reagan chegou a ser acusado de ver o mundo a preto e branco, mas Trump vê‑o em espelho e reflexo.
Se quisermos fixar isto numa fórmula simples, podemos dizer que Reagan foi um Presidente republicano que acreditou que a América existia antes e existirá depois dele, Trump é um presidente que age como se a América fosse um episódio da sua autobiografia.
Vistos a partir da história longa do Partido Republicano, Reagan surge como o último grande presidente “clássico” dessa tradição, Trump, como um simulacro.
Um potenciou a direita americana a cumprir uma ideia de América. O outro usa a América para alimentar uma ideia de Donald Trump, subordinando o “Eu” à República.
E é nessa diferença que se mede a distância entre dois presidentes, mas também e sobretudo o declínio da cultura política americana e por consequência ocidental.
Luís Nunes dos Santos
















