A elefanta Julie, o último animal selvagem presente em circos em Portugal, iniciou um processo de transferência para um santuário no Alentejo, numa operação conjunta da Pangea Trust e do Circo Víctor Hugo Cardinali. A mudança marca a aplicação integral da legislação que proíbe o uso de animais selvagens em espetáculos circenses no país.
Segundo comunicado conjunto, a transferência resulta de um acordo voluntário entre as duas entidades, tendo como objetivo assegurar condições adequadas ao bem-estar do animal. Julie será acolhida num santuário com cerca de 400 hectares, localizado entre Alandroal e Vila Viçosa, concebido especificamente para elefantes.
Legislação aplicada na totalidade
Portugal aprovou em 2018 a proibição do uso de animais selvagens em circos, com entrada em vigor faseada até 2024. Com a saída de Julie, o país deixa de ter qualquer animal selvagem em atividades circenses.
A operação surge após outras iniciativas semelhantes. No início de 2026, a organização Pangea já tinha apoiado a transferência de Sona, identificado como o último tigre de circo em território nacional.
Novo destino no Alentejo
Julie integrou o Circo Víctor Hugo Cardinali em 1988, depois de chegar a Portugal ainda jovem, proveniente do sul de África. Foi retirada de atividade em 2024, no mesmo ano em que entrou plenamente em vigor a legislação e faleceu a sua última companheira.
De acordo com o comunicado, o santuário onde será acolhida dispõe de equipa especializada e infraestruturas preparadas para garantir acompanhamento veterinário e condições adequadas à espécie. Está também prevista a chegada de outra elefanta africana, atualmente num jardim zoológico na Bélgica, o que poderá permitir a convivência entre ambas.
Processo acompanhado pelas entidades envolvidas
A transição está a ser acompanhada pelas equipas do circo e do santuário, incluindo avaliações de saúde e preparação logística para o transporte.
A diretora-geral da Pangea, Kate Moore, referiu que «as transferências de elefantes são complexas» e destacou a colaboração com o circo como elemento essencial do processo.
Já Vítor Hugo Cardinali afirmou que a decisão «não foi fácil», sublinhando a ligação de mais de três décadas ao animal, mas considerou que a solução encontrada corresponde ao melhor interesse de Julie.
Contexto europeu
A conclusão deste processo coloca Portugal entre os países que aplicaram integralmente a proibição do uso de animais selvagens em circos. Em vários Estados-membros da União Europeia existem legislações semelhantes, mas a sua implementação tem enfrentado dificuldades, nomeadamente por falta de soluções de realocação ou consenso político.















