Maria de Jesus Figueiredo passa os dias entre leite, mãos e tempo. Na queijaria Lactobelavista, em Rio de Moinhos, no concelho de Borba, não há distinção entre chefia e equipa.
“Ali não há patroa, não há funcionária. Todos contamos como número de funcionárias para fazer”, explicou em declarações ao jornal ODigital.pt, descrevendo um modelo de trabalho onde a experiência se transmite no dia a dia, entre quem aprende e quem ensina.
É nesse modelo que vai transmitindo conhecimento a quem chega, num processo que exige prática e tempo, uma vez que “tenho de ir ensinando, porque elas não vêm ensinadas”.
O segredo está na mão e na qualidade
Na base de tudo está o produto. Para Maria de Jesus, não há margem para falhas quando se trata de fazer queijo, até porque “um bom queijo é essencialmente ter produtos de qualidade, o leite tem que ter qualidade”.
A produtora, refere que a sua produção mantém-se fiel a métodos tradicionais, onde a intervenção humana continua a ser determinante: “Não é à máquina, é tudo manual, tudo artesanal”.
O processo inclui vários fatores, desde a matéria-prima até ao tempo de cura, passando pela forma como o queijo é trabalhado.
Se há segredo, Maria de Jesus não o desvendou, mas pode passar por “trabalhar à mão e com bons ingredientes, os de melhor qualidade”.
Falta de pastores condiciona produção
Apesar da qualidade do produto, o setor enfrenta dificuldades estruturais. A escassez de pastores e de produção local de leite tem vindo a alterar a realidade das queijarias, uma vez que “cada vez vai havendo menos pastores e as pessoas depois não vão tendo criação de gado”, afirmou.
Perante este cenário, muitos produtores recorrem a cooperativas para garantir matéria-prima, mas o produto vem de fora do concelho: “Vem uma cisterna entregar-nos o leite”.
Uma tradição que vem de gerações
A produção de queijo em Rio de Moinhos não é recente. Faz parte da identidade da freguesia e “vem do tempo dos nossos familiares”, sublinhou a produtora.
Na sua própria família, Maria de Jesus vê essa continuidade, ainda que com desafios, pois “nem todos querem seguir o mesmo, mas tenho dois filhos e um está a trabalhar connosco”.
Porém, confessou ter uma preocupação constate: A incerteza quanto ao futuro. “É uma pena deixar morrer aquilo que temos estado a construir”, afirmou.
Queijo como motor da terra
O queijo assume também um papel central na promoção de Rio de Moinhos e na atração de visitantes à freguesia. Para Maria de Jesus Figueiredo, a qualidade do produto é determinante para dar a conhecer o território e incentivar a procura.
“É bom para divulgar e dar a conhecer às pessoas, para virem e comprarem”, vincou, sublinhando que se trata de “um produto natural, com qualidade”.
Numa terra de pequena dimensão, a produção de queijo acaba por assumir também uma função de divulgação, contribuindo para a chegada de visitantes e para a afirmação local.
“Acaba por trazer pessoas também à nossa terra, uma terra pequenina, mas acolhedora”, destacou.
Entre dificuldades e persistência
Com mais de 25 anos ligados à queijaria, Maria de Jesus reconhece que o percurso tem sido marcado por dificuldades, num setor exigente e em constante adaptação.
“Já temos tentado umas vezes, com alguns percalços no caminho, porque isto não é fácil”, confessou.
A produtora sublinha ainda a importância do apoio institucional para garantir a continuidade da atividade, numa realidade onde os desafios não podem ser enfrentados de forma isolada.
“Temos falado com as entidades para nos tentarem ajudar, porque é difícil sermos só nós”, referiu, dizendo ainda que, só assim, “temos indo fazendo e conseguindo dar à situação”.
Manter viva uma tradição
No centro de tudo está a vontade de preservar um saber que atravessa gerações e que continua a marcar a identidade local. “Queremos que a tradição se mantenha”, afirmou.
Entre o trabalho diário, os desafios do setor e a incerteza quanto ao futuro, Maria de Jesus continua a fazer queijo como sempre aprendeu: com as mãos, com tempo e com a preocupação de garantir que a tradição não desaparece.















