Recentemente, estivemos em mais uma viagem pelo Alentejo. Uma daquelas que marca a memória, visual e olfativa.
No coração do distrito de Évora, a poucos quilómetros da cidade sede, estão as instalações da Gesamb – Gestão Ambiental e de Resíduos, empresa que recebe e trata os resíduos de 12 municípios da região.
Ou seja, se é de Alandroal, Arraiolos Borba, Estremoz, Évora, Montemor-o-Novo, Mora, Mourão, Redondo, Reguengos de Monsaraz, Vendas Novas ou Vila Viçosa, certamente os seus resíduos terão esta morada como destino.
Um destino que não será final, caso seja feita a reciclagem. Isto pois, a título de exemplo, de Évora, a sua garrafa de água de plástico poderá ser levada para outro ponto do país para ser transformada… em roupa.
Esta foi apenas uma das curiosidades que aprendemos num caminho que começou no auditório da sede da empresa e com Gilda Matos, técnica superior da GESAMB e responsável pela visita.

Juntamente com funcionários de uma associação eborense, o auditório encheu-se de surpresa com as várias curiosidades que a técnica ia lançando nas suas explicações.
Por exemplo, sabia que a empresa abrange cerca de 150 mil habitantes? E que estes, em média produzem cerca de 300 toneladas de lixo todos os dias? Algo que até pode não parecer muito quando lido (ou escrito), mas que definitivamente não passa despercebido.
No auditório, o principal objetivo é “desmistificar” os mitos que todos nós ouvimos acerca da reciclagem. Em primeiro lugar e que seria mais visível depois, «aquele de que não vale a pena separar se depois misturam tudo».
«Só o contentor amarelo, já se percebe que há imensos tipos de plástico e metais, pacotes de leite e sumos que têm de ser separados», acrescentou Gilda Matos, dizendo ainda que «com muita facilidade e rapidez se percebe que não se pode misturar, porque ainda mais trabalho temos depois aqui a separar». Algo que certamente só se perceberá ao vivo.


«Vale a pena separar, porque nós não misturamos e ainda temos de separar mais coisas ainda, para garantir que os materiais cheguem à fábrica certa», num momento em que as «fábricas estão muito especializadas» e em que «só há vantagens para que as pessoas separem».
Corridos alguns exemplos de reciclagem em casa, fáceis de realizar, Gilda Matos destacou outro ponto: A valorização do trabalho das pessoas que recolhem o lixo.
«Infelizmente ainda há muitas pessoas que tratam quem trabalha nesta área como homem do lixo. Nós costumamos dizer que o homem do lixo somos todos nós que produzimos lixo», frisou.

A pessoa que recolher «é apenas isso, a pessoa que recolhe», dando prioridade neste tópico à visita às instalações.
Para além disso, a técnica gosta de sublinhar a evolução dos tempos e das tecnologias. Segunda a própria «temos de perceber que evoluímos de uma forma gigante nestas últimas décadas».
«Muitas das pessoas que moram na região, nasceram no tempo das lixeiras e, se calhar, não conseguiram acompanhar esta evolução», referindo que houve 22 lixeiras no distrito. Contudo, entende que há «sempre uma resistência à mudança» e reconhece que «este trabalho é um trabalho continuo».

«Às vezes, quando recebemos pessoas das universidades seniores, ficam abismadas com o que acontece ao lixo delas. São do tempo da lixeira e da estrumeira ao fundo da rua e percebem que há um conjunto gigante de pessoas que transporta esse lixo e que há tecnologia investida para tratar este lixo», exemplificou Gilda Matos.
É senso comum que com a reciclagem, a “vida” do lixo não acaba sempre num caixote de metal na rua. Também é senso comum que o papel é derivado da árvore, o plástico do petróleo, o vidro da areia e que o metal é um minério.
Porém, a técnica acredita que uma “volta ao passado” poderia ser benéfica: «Se calhar, temos de voltar atrás no tempo, ao tempo da garrafinha de vidro».
«Depois entramos numa fase de muito consumismo e do descartável. Agora temos de voltar atrás e repensar tudo isto», complementou.
Findada a palestra, Gilda Matos avisa que o que viria a seguir poderia não ser para todos os “narizes”, o que assustou alguns dos presentes no referido auditório. Um deles, assustado pelo cheiro, nem saiu do espaço.

Caminhada feita até à Unidade de Tratamento Mecânico e Biológico. Progressivamente o “nariz” começou a sentir o impacto das toneladas de resíduos depositados na instalação. Pouco a pouco, a técnica ia tendo cada vez mais razão nas suas palavras.
Entrámos, juntamente com o resto do grupo e a agora “guia” e rapidamente chegámos à sala da garra, onde um fosso de oito metros de profundidade se apagava com o lixo separado do ecoponto amarelo.
Sacos, muitos sacos, principalmente. De todos os tamanhos, cores, feitios e, claro, cheiros. Estava também imposto o impacto visual, que Gilda Matos falou no auditório.
«Isto é pedir às pessoas para começarem a olhar para o seu lixo com outra perspetiva», referiu, dizendo ainda que «quando se ouve falar em 300 toneladas de lixo todos os dias, ninguém consegue imaginar a montanha».
Realmente, todos produzimos lixo. É um facto. Ainda assim, é difícil de visualizar o que consumimos e deitamos fora, todos os dias. Isso multiplicado por uma casa de família torna as tais toneladas mais fáceis de desenhar mentalmente: «Temos de começar a ter a perceção da quantidade de lixo que fazemos».
Porém, esta visita tem também outro objetivo: «É também a questão da insustentabilidade, porque isto é um consumo de recursos e de materiais».
«Estamos numa fase de muito consumismo e do descartável. Temos de informar as pessoas para que comecem a valorizar e a olhar para o lixo como um produto com potencial, que pressuponha que ainda é uma matéria-prima», atirou.
O restante da visita é melhor ver, do que explicar, já que esta é uma «visita que marca qualquer pessoa e que ninguém fica indiferente».















Caminhámos de volta ao auditório com Gilda Matos, já sem o grupo, que se despediu logo após a saída da unidade. A técnica ainda nos detalhou como funciona o centro de triagem, que vai ser aumentado, o aterro, em termos energéticos, e para onde vai essa energia.
Ainda mais uma amostra de como a evolução tecnológica funciona em favor da reciclagem, mas que não terá sido «acompanhada pelas pessoas»: «Talvez tenha sido muito rápida para muitas pessoas».
Em relação às visitas, Gilda Matos destacou que é uma “vontade” da técnica, já que «precisamos que as pessoas fiquem com a questão registada».
«Depois podem até não separar o lixo, mas tenho a certeza de que há ali uma vozinha interior que lhes diz que não estão a fazer bem», adicionou.
Destacou ainda que acha que «já ganhámos o sentimento de ‘não faço, mas devia fazer’», porém, há que dar o «salto para a motivação do fazer», mas «ainda há quem diga que não ganha nada com isso».















