As relações de poder foram sempre o fio invisível que coseu a história humana, dos altares dos faraós às salas de reunião em Bruxelas. A forma e o pretexto mudaram. O que permanece é a disputa pela legitimidade, quem manda, porquê, e com que direito. A Europa de hoje, instalada na confortável ilusão de que vive para além do conflito, parece ter esquecido precisamente que o poder nunca desaparece, apenas troca de protagonistas.
Durante milénios, o poder apresentou-se como sagrado. O rei não governava apenas pela força, governava porque os deuses o tinham escolhido. A obediência não era uma escolha política, era uma obrigação sagrada. Questionar o monarca era discutir com os deuses. Essa fusão entre o divino e a política deu ao poder uma aura de inevitabilidade que sustentou impérios inteiros.
Com o medieval europeu, o trono passou a negociar com o altar. O poder reparte-se, disputa-se, fragmenta-se em feudos. O rei precisa da bênção da Igreja, a Igreja precisa da espada do rei. O resultado é uma tapeçaria de lealdades pessoais, guerras onde se decide tanto a ortodoxia da fé como o mapa da Europa. O poder continua sagrado, mas já não é indiviso.
A modernidade faz o poder descer do céu à terra. Já não é dom de Deus, é produto de um pacto entre homens. O Estado absolutista centraliza e inventa a máquina que virá a ser contestada em nome de algo novo: o povo. A teoria política descobre a palavra “soberania” e dá-lhe um sujeito: primeiro o rei, depois a nação, finalmente os cidadãos. A Revolução Francesa derruba este regime e o poder passa a ter de se explicar.
No século XIX e XX, a história acelera. Chegam a industrialização, as massas, os totalitarismos. O poder já não é apenas o édito do soberano, é o regulamento, a propaganda, o partido único, já não vive nos palácios, mas nas fábricas, nas escolas, nos jornais e nas prisões.
Chegados ao século XXI, o poder torna-se mais difuso. Já não precisa de se impor, basta o feed, o algoritmo, uma métrica de desempenho. Governa-se pela gestão da atenção, pela estatística, pela ameaça permanente de exclusão económica. A obediência deixou de ser imposta pela espada ou pelo catecismo, é induzida pela promessa de conforto e pelo medo da irrelevância. As novas liturgias estão nos indicadores, ratings e nos objetivos do excel.
Para a Europa sonâmbula, a sua construção foi vendida como a superação das guerras, da barbárie, dos nacionalismos homicidas. A intenção foi correta. O problema tem sido o preço político, porque em nome da paz e da estabilidade, a Europa procedeu a uma espécie de esterilização do conflito.
Fala-se do exercício do poder como se fosse sujo, tornando-o despolitizado e envolto numa retórica de neutralidade.
A extrema-direita instalou-se porque percebeu melhor do que a esquerda o ressentimento produzido por esta anestesia neutral. Apresentou-se denunciante da farsa, ainda que proponha outra, bem mais sombria. Se a Europa não recuperar a coragem de falar claramente de poder, de interesses geopolíticos e de escolhas reais, continuará a alimentar os que prometem devolver ao povo uma soberania que, na prática, pretendem capturar.
Se a Europa quiser evitar transformar-se numa respeitável irrelevância histórica, terá de abandonar a fantasia da neutralidade e voltar a reconciliar-se com a sua missão. Isso implica reforçar os mecanismos de legitimidade democrática no plano europeu, decidir e traçar um caminho, assumindo que o conflito político não é a doença da democracia, é a condição normal do seu funcionamento.
Sem essa reconciliação, a União Europeia arrisca-se a ser permanentemente uma estrutura juridicamente imponente, economicamente condicionante e politicamente anémica.
A história não costuma ser indulgente com construções políticas que se esquecem de que o poder existe e que, quando não é assumido, é capturado pelo mais forte, infelizmente não necessariamente o mais justo.
Por: Luís Nunes dos Santos
Historiador, Secretário-Geral do PSD Distrital de Évora
















