A tempestade Kristin foi a tempestade mais forte de que há registo e antes de se perceber a escala dos estragos, já se distribuíam culpas, fabricavam-se falhanços sistémicos, descrevia-se um Estado ausente, apático, burocrático e indiferente. Tudo aquilo que parte da nossa elite opinativa adora repetir em loop sempre que há uma tragédia.
Sucede que, desta vez, os factos são teimosos. O Estado respondeu com preparação, mobilização e um programa de reconstrução em poucos dias, apesar de todo o ruído populista que insiste em repetir que “não se fez nada”.
Na noite de 28 de janeiro de 2026, a região Centro foi atingida por ventos que ultrapassaram os 200 km/h, destruindo casas, fábricas e infraestruturas ao longo de cerca de 60 municípios.
Deixando um rasto de 5.000 quilómetros de linhas elétricas e de comunicação destruídas e mais de um milhão de pessoas sem eletricidade, água e comunicações no pico do evento. As estradas e ferrovias ficaram interrompidas, submersas ou inutilizadas.
Perante este grau de devastação não basta proclamar que tudo falhou. É preciso olhar para o que foi feito e com que meios se fez.
A resposta começou antes da primeira rajada extrema. A 27 de janeiro, na véspera, o sistema de Proteção Civil foi colocado em mobilização integral, ativando o comando nacional, coordenação intersectorial e comandos regionais e municipais.
Ainda antes da noite de 28, foram enviados avisos preventivos à população, por SMS e comunicação social, com alertas para o agravamento extremo do estado do tempo. Às 13h40 de 28 de janeiro, já depois do impacto inicial, Portugal ativou o serviço Copernicus, através do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, para avaliação rápida por satélite dos impactos no território.
A coordenação de crise do Governo foi ativada às primeiras horas de 28 de janeiro, com um comunicado do primeiro-ministro. Nos primeiros dias realizaram-se duas reuniões do Conselho de Ministros, ambas com decisões concretas de socorro imediato e reconstrução.
No terreno houve diálogo permanente com Presidentes de Câmaras, Associação Nacional de Municípios Portugueses, CIM´s e a Comissão Europeia, ao ponto de o comissário europeu da Energia visitar as zonas atingidas logo a 29 de janeiro. Em paralelo, o Governo manteve instruções constantes às entidades envolvidas e reuniu com as seguradoras e indústria da construção para preparar a fase seguinte: a reconstrução.
Foi declarado o Estado de Calamidade a 29 de janeiro, que permitiu manter a prontidão reforçada dos meios, agilizar contratação pública e preparar a resposta a cheias extremas nas principais bacias hidrográficas. Houve uma sequência articulada de decisões, com datas, horas e efeitos concretos. Uma das críticas fáceis nestes contextos é o mantra de que “não há meios” ou que “os meios nunca chegam onde são precisos”. Entre 28 de janeiro e 1 de fevereiro, foram mobilizados, cerca de 33.791 operacionais.
Só na frente de Energia, Transportes e Comunicações, atuaram 1.190 trabalhadores da Infraestruturas de Portugal, 3.300 técnicos das telecomunicações e 1.640 pessoas nas redes de eletricidade de alta, média e baixa tensão. Na proteção direta das populações, intervieram 9.720 elementos da Proteção Civil e bombeiros, 3.855 da PSP e GNR, 548 ligados ao ambiente (ICNF e APA), 1.090 das Forças Armadas, 200 da Segurança Social e 2.498 profissionais de saúde (SNS e INEM).
A Administração Central e operadores somaram assim 24.041 pessoas, às quais se juntaram cerca de 9.750 trabalhadores das autarquias locais, elevando o total quase às 34 mil pessoas. Esta mobilização desmente frontalmente a caricatura do “Estado ausente”.
Ao quinto dia, o Governo aprovou, em Conselho de Ministros extraordinário, um programa de medidas excecionais de apoio de emergência e reconstrução das zonas afetadas.
Para as famílias, inclui apoios até 10.000 euros para reconstrução de habitação própria e permanente, apoios de urgência da Segurança Social entre 537 e 1.075 euros por agregado em caso de carência ou perda de rendimento, moratória de 90 dias nos créditos à habitação própria e apoio direto a instituições sociais que garantam alojamento.
Para as empresas, foram criadas duas linhas de crédito através do Banco de Fomento: 500 milhões de euros para tesouraria, com 12 meses de carência, e 1.000 milhões para reconstrução empresarial, com 36 meses de carência. Beneficiam de moratórias de 90 dias nos créditos, com possibilidade de extensão até 12 meses, isenção total ou parcial de contribuições à Segurança Social por até seis meses (prorrogáveis), layoff simplificado durante três meses, incentivos à manutenção de postos de trabalho e um plano extraordinário de qualificação e formação profissional. Na área fiscal, foi decretada moratória das obrigações até 31 de março, transferindo-as para abril.
Nas infraestruturas, destacam-se 400 milhões de euros para a Infraestruturas de Portugal (ferrovia), 200 milhões, via CCDR, para autarquias (escolas e equipamentos) e 20 milhões para património cultural. somando-se um regime excecional que dispensa controlos prévios em obras de reconstrução, licenciamento urbanístico, procedimentos ambientais, regras de contratação pública e constrangimentos orçamentais e financeiros, precisamente para garantir rapidez de processos.
Foi criada uma Estrutura de Missão para a reconstrução da região Centro encarregue de coordenar e executar rapidamente as medidas.
Não é sério, à luz dos factos, sustentar que “o Estado desapareceu”, quando o que vemos é um sistema de proteção civil em prontidão máxima na véspera, quase 34 mil pessoas mobilizadas e um programa robusto de reconstrução aprovado.
Na política séria não basta ser do contra porque é preciso decidir e responder perante o país. Não podemos embarcar na caricatura populista de que “o Estado falhou” por definição, independentemente dos factos.
Luís Nunes dos Santos















