No passado dia 1 de novembro de 2025, a Universidade de Évora assinalou 466 anos de história. A sua origem remonta a 1559, ano em que o Papa Paulo IV, através da bula Cum a nobis, autorizou a criação desta instituição. Porém, a raiz da sua fundação encontra-se na vontade da Coroa portuguesa, então instalada temporariamente em Évora. Embora o impulso inicial tenha sido de D. João III, coube ao Cardeal D. Henrique concretizar este projeto que viria a marcar profundamente o panorama académico nacional.
Desde o início, a Universidade de Évora enfrentou limitações: foi impedida de lecionar Medicina, Direito Civil e parte do Direito Canónico áreas que, curiosamente, continuam ausentes da sua oferta formativa. A área médica, contudo, aguarda há vários anos o momento de avançar, simbolizando tanto persistência como aspiração ao futuro.
A história da instituição não esteve isenta de ruturas. Duas centenas de anos após a sua fundação, foi cercada por tropas de cavalaria, na sequência do decreto de expulsão dos Jesuítas. Só na segunda metade do século XIX, com o estabelecimento do Liceu de Évora e o reconhecimento concedido por D. Maria II permitindo o uso da tradicional “capa e batina”, a cidade voltou a respirar ambiente académico.
Já no século XX, em 1973, o ministro da Educação José Veiga Simão instituiu o Instituto Universitário de Évora, que, em 1979, deu lugar à Universidade de Évora tal como hoje a conhecemos. Um percurso singular, marcado por interrupções, transformações e renascimentos.
Ao revisitar esta trajetória, sobressai uma constante: o espírito de missão e perseverança que continua vivo nesta Academia. Somos uma universidade do interior, e isso significa enfrentar desafios estruturais desde o primeiro momento. Contudo, entre todos, o alojamento estudantil impõe a maior barreira ao acesso ao Ensino Superior. Falham-nos, demasiadas vezes, a projeção, a antevisão e o apoio tanto a nível nacional como local necessários para que a cidade esteja à altura desta instituição e do seu crescimento.
E é aqui que se impõe a reflexão: será também prioridade da Câmara Municipal de Évora ambicionar que a cidade acompanhe a Universidade nesta marcha? Será Évora capaz de assumir plenamente o papel de cidade universitária que a sua história reclama?
A Universidade tem feito o seu caminho, mesmo quando o país vira o olhar para outros centros e outras geografias. Mas uma instituição com quase meio milénio de vida merece mais do que resiliência: merece visão, compromisso e investimento. Porque não é apenas o destino da Universidade que está em causa é o destino de Évora. Uma cidade onde o passado irradia grandeza, mas que deve escolher, com convicção, construir também o seu futuro.
Afinal, universidades não são apenas espaços de ensino. São motores culturais, sociais e económicos; são faróis de conhecimento; são âncoras territoriais. E Évora, com a sua história inigualável, tem aqui uma oportunidade rara: crescer, inovar e afirmar-se com uma presença académica que não seja apenas simbólica, mas estruturante.
O futuro está a ser escrito agora. Que não faltem, portanto, as condições, a ambição e a coragem política para que Évora e a sua Universidade caminhem lado a lado e que, daqui a mais 466 anos, se possa dizer que este foi o momento em que a cidade escolheu verdadeiramente acreditar no seu potencial universitário.
















