No passado dia 28 de abril, Portugal enfrentou um apagão que durou cerca de 14 horas, mergulhando o país num cenário de caos e surpresa coletiva. Este acontecimento inesperado veio demonstrar, de forma clara, que os cidadãos não estão preparados para situações deste género.
Logo nas primeiras horas, os supermercados foram invadidos por uma onda de pânico. As prateleiras ficaram vazias em questão de horas, as lojas esgotaram lanternas e velas, e surgiram episódios de tensão entre clientes. A arrogância e o medo vieram ao de cima num momento de incerteza, onde muitos acreditaram que a falha no fornecimento de eletricidade poderia prolongar-se por dias, ou até meses.
É provável que estas reações tenham sido agravadas pelo trauma coletivo da pandemia da COVID-19. Ainda marcados pelos meses de confinamento, muitos portugueses reviveram o receio da privação e da instabilidade. A memória recente de um país fechado em casa, limitado ao essencial, alimentou o receio de um regresso ao isolamento.
Contudo, nem tudo foi negativo. Este apagão trouxe também momentos de união e de reencontro humano. Na cidade de Évora, por exemplo, foram muitos os que decidiram transformar a adversidade em oportunidade: acenderam fogareiros nas ruas, juntaram-se em pequenos grupos, e prepararam refeições à luz de velas e lanternas. Numa época tão marcada pela presença constante das redes sociais e da tecnologia, este intervalo forçado no digital abriu espaço ao convívio presencial, à conversa partilhada, e a um retorno momentâneo de simplicidade.
Esta quebra inesperada no fornecimento de eletricidade funcionou como um espelho social. Revelou tanto as fragilidades logísticas de um país moderno, altamente dependente da tecnologia, como também a resiliência e a capacidade de adaptação dos seus cidadãos.
Durante as horas sem luz, foram inúmeros os relatos de dificuldades nas comunicações, redes móveis e internet ficaram inoperacionais em várias zonas, dificultando o contacto entre familiares e a transmissão de informações oficiais. Os hospitais recorreram a geradores de emergência, e pequenos negócios, especialmente os que dependem de sistemas digitais, viram-se forçados a encerrar temporariamente.
Apesar disso, gestos de solidariedade multiplicaram-se. Vizinhos que mal se conheciam partilharam recursos, ajudaram idosos a iluminar as suas casas e improvisaram refeições comunitárias. Em zonas urbanas e rurais, a ausência de ecrãs promoveu um regresso inesperado ao convívio pessoal e ao apoio mútuo.
Este episódio deve ser encarado como um aviso e uma oportunidade. Um aviso para nos prepararmos melhor, como indivíduos e como sociedade, para eventos inesperados. E uma oportunidade para refletirmos sobre a nossa dependência da tecnologia, e sobre a importância de fortalecer os laços comunitários. Afinal, mesmo na escuridão, foi possível encontrar luz nos gestos, nos encontros e na redescoberta de uma convivência mais humana















