Trump está em guerra com o Irão e em guerra com a realidade. A primeira pode acabar num armistício, a segunda não tem tréguas, porque a guerra contra a realidade tende a arrastar consigo o direito internacional, a segurança europeia, o preço da energia, a sobrevivência da ordem ocidental que ele jura defender à bomba.
A maior operação militar americana no Médio Oriente desde 2003 foi batizada, com modéstia, “Epic Fury”, enquanto se garantia que será uma guerra “curta”, “limpa” e “vitoriosa”. Tudo fácil. Tudo simples.
Só que pretexto muda conforme a hora do dia. Já foi para impedir uma retaliação iraniana a Israel, foi também para destruir a capacidade de militar e evitar uma guerra maior, foi para travar o programa nuclear e para abrir caminho à mudança do regime. Todo um menu degustação de justificações, todas servidas com ultimatos de 48 horas para reabrir o estreito de Ormuz sob pena de vir aí o inferno. Ao mesmo tempo, Trump assegura que “está tudo praticamente destruído”.
Há aqui um paradoxo de omnipotência: já “venceu”, mas ainda precisa de vencer mais um bocadinho, já “destruiu tudo”, mas promete continuar a destruir o que sobrar.
O efeito político é devastador. Se parar agora, Trump é humilhado, se continua, entra num atoleiro. Mas o mal está feito, na verdade.
Tudo isto já seria grave, mas ainda gerível se, em paralelo, a política externa americana não estivesse a abrir frentes desnecessárias com os aliados a quem pede apoio para esta guerra. Até porque transformar a NATO num palco de chantagem e a Gronelândia num fetiche, oferece a Moscovo e Pequim uma cisão aberta entre os Estados Unidos e a União Europeia precisamente quando o Médio Oriente e o Indo‑Pacífico exigiriam coordenação fina. É uma oferta geopolítica que nenhum inimigo teria coragem de pedir.
Trump quer os aliados na sua linha da frente, mas não suporta a ideia de que a capacidade militar aliada possa ser utilizada para qualquer coisa que não seja seguir, sem pestanejar, as ordens que ele próprio determinou previamente sem dizer a ninguém.
O episódio do estreito de Ormuz é um exemplo perfeito. O Irão bloqueou um canal vital para o comércio energético mundial, Trump responde com ultimatos, ameaçando reduzir o país a uma idade das trevas a cada 48 horas.
É verdade que o regime iraniano é brutal, repressivo e regionalmente agressivo. Mas a ideia de que é possível “repor a liberdade de navegação” destruindo um país com 90 milhões de habitantes, no centro de uma região inflamável, é um salto demasiado grande.
Trump colocou o destino do ocidente num estreito ainda mais apertado do que o de Ormuz.
Enquanto a União Europeia não tiver autonomia energética e uma política externa que não seja um catálogo de boas intenções, estará condenada a viver ao ritmo dos humores de quem manda em Washington, seja Trump ou outro. A guerra no Irão expõe de novo essa vulnerabilidade.
Vai existe a tentação, perante o espetáculo de contradições que Trump oferece diariamente, de cair num antiamericanismo de catecismo, que temos de combater, porque os EUA não são um bloco monolítico, há uma América institucional, académica, militar e cívica que não desapareceu só porque o habitante da Casa Branca é errático.
Até porque é essencial que se reconheça o perigo real que vem de Teerão, do Hamas, do Hezbollah, da guarda revolucionária.
A questão do Irão tem sido um compêndio sobre a política externa do improviso, bluff, personalização extrema, desprezo por alianças, instrumentalização geral.
Só que na política externa, como na vida, há contradições que matam. A de Trump, bombardear em nome da ordem enquanto dinamita os alicerces dessa mesma ordem, é uma delas.
A nossa, na Europa, pode ser ainda mais fatal para o modo de vida que temos, ao saber isto tudo, tê‑lo à frente dos olhos, e continuarmos a comportar‑nos como se não tivesse nada a ver connosco.
Só que tem. E chama‑se “futuro”.
Luís Nunes dos Santos















