InícioOpiniãoConhecer o país que...

Conhecer o país que temos: Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

Publicado pela primeira vez há oitenta anos, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, permanece uma das obras maiores do pensamento português do século XX.

Publicado pela primeira vez há oitenta anos, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, permanece uma das obras maiores do pensamento português do século XX. Oferece uma descrição científica do território, interpretando Portugal enquanto forma de civilização, construindo um retrato de longa duração do país ao articular geografia, história, cultura e onde o espaço e a construção humana se acompanham e explicam mutuamente.

Orlando Ribeiro parte da ideia de que “Portugal é mediterrânico por natureza e atlântico por posição.” Nesta fórmula condensa-se a duplicidade estrutural do território. O Mediterrâneo surge como matriz civilizacional antiquíssima, moldando práticas agrícolas, ritmos de vida e formas de povoamento. O Atlântico, por sua vez, afirma-se como horizonte de projeção, mobilidade, comércio e inovação técnica.

O livro propõe que a identidade portuguesa se construiu da interseção entre estas duas ordens espaciais: de um lado, o peso da ruralidade e da tradição mediterrânica, do outro, a abertura marítima e a vocação atlântica. A leitura geográfica não é um pano de fundo neutro, mas a própria condição da história política, económica e cultural portuguesa.

A obra organiza o território em grandes regiões, definidas por padrões climáticos, relevo, usos do solo e tipos de povoamento, sempre sob o fio condutor da relação Mediterrâneo/Atlântico. O Norte Atlântico é descrito como o “tronco antigo e robusto” da nação, marcado pela abundância de chuvas, policultura intensiva, minifúndio e elevada densidade populacional. O Norte transmontano e o interior centro configuram uma faixa de transição, onde se combina a contextura mediterrânica, de verões secos, presença da oliveira e da vinha, com influências atlânticas moderadas.

Já o Sul (Ribatejo, Alentejo e Algarve) assume-se como espaço claramente mediterrânico, com grandes propriedades, cereais de sequeiro, olival e montado, clima seco e ritmos de vida marcados pela estação quente e pela escassez de água.

Portugal mudou profundamente desde que Orlando Ribeiro escreveu este livro. A geografia física, porém, permanece. E é precisamente por isso que a obra continua a oferecer uma chave interpretativa sólida para compreender a nossa identidade territorial, sobretudo nos anos do advento democrático, da integração europeia e as suas consequentes mudanças na sociedade.

As transformações ocorridas desde o 25 de Abril são impressionantes, a terciarização da economia foi acelerada, as migrações internas intensificaram-se e a população concentrou-se progressivamente no litoral e nos centros urbanos.

Em poucas décadas, Portugal passou de um país essencialmente rural, aquele que Orlando Ribeiro descreveu com tanta mestria, para uma sociedade predominantemente urbana. O interior perdeu população, enquanto o litoral concentra hoje mais de 80% dos residentes. O “formigueiro de gente rural” que o Orlando Ribeiro identificava como paisagem clássica portuguesa deram lugar a uma realidade profundamente distinta.

A grande ideia de “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, reside na demonstração de como a identidade de um território se constrói através da interação complexa entre geografia física, história e cultura. Como sublinhou José Mattoso, a identidade nacional não é apenas um fenómeno mental: tem sempre um suporte objetivo, que inclui “um polo espacial e um território determinado”. É a consciência das permanências que resistem à mudança no nosso “polo espacial” que Orlando Ribeiro nos oferece.

Compreender essas permanências é fundamental para enfrentar os dilemas atuais. O despovoamento do interior, por exemplo, não pode ser resolvido apenas com incentivos económicos. Exige uma visão integrada das regiões, das suas articulações históricas e das influências atlânticas e mediterrânicas que continuam a moldar mentalidades, práticas e expectativas. A “rica variedade de aspetos e contrastes” identificada por Orlando Ribeiro pode, ainda hoje, ser um recurso estratégico natural e essencial do país.

O livro oferece um quadro interpretativo maleável, porque permite ler fenómenos posteriores, como a industrialização, a entrada na União Europeia, expansão das autoestradas, urbanização litoral, como novas camadas sobre um fundo de contrastes mediterrânico-atlânticos que nunca desapareceu.

Nesse sentido, o ensaio é perfeito para pensar a relação entre espaço, história e identidade nacional. Um país que não se conhece a si mesmo está condenado a repetir-se sem nunca se compreender. Sem consciência do território, o progresso é apenas um equívoco bem iluminado.

É precisamente por isso que a obra não perdeu relevância, nem vai perder.

Luís Nunes dos Santos

Mais notícias

O Partido Republicano e o seu simulacro

Reagan e Trump são, formalmente, do mesmo partido, mas pertencem a tradições políticas quase...

Urbanos rurais

Todos somos rurais, ou pelo menos já o fomos; nenhum de nós é, por...

Nanomateriais de carbono como aliados no tratamento do cancro

O cancro continua a ser um dos maiores desafios da medicina moderna, sendo responsável...

As Low-cost construíram a mobilidade dos Europeus

As companhias aéreas de baixo custo representam uma das maiores revoluções da Europa das...

Barreto e a sua Anatomia da Revolução

António Barreto desenvolve em “Anatomia de uma Revolução: A Reforma Agrária em Portugal” um...

Abril vive em cada um de nós!

Celebrámos no passado fim de semana os 52 anos de um dos dias mais...

Discurso dos 52 anos do 25 de Abril

Celebramos hoje, em Évora, os 52 anos do 25 de Abril e 50 anos...

Portugal não arde por acaso

Portugal não arde por acaso. E já não há paciência para fingir que sim. Todos...

A nossa História usada pela ignorância

O debate entre Pacheco Pereira e André Ventura foi vendido como um serviço público...

Mais visto

Homem fica em prisão preventiva por violência doméstica, violação e sequestro da ex-namorada em Évora

Um homem de 38 anos ficou em prisão preventiva por suspeitas da prática dos crimes de violência doméstica, violação e sequestro contra a ex-namorada,...

Militar da GNR de Évora distinguido por projeto inovador na área da saúde

O militar da GNR do Comando Territorial de Évora, Cabo Vítor Bilro, foi distinguido com o Prémio de Investigação Científica 2025, na área do...

Tauromaquia: Dia 12 de agosto haverá corrida de touros em São Romão (Vila Viçosa)

A localidade de São Romão, no concelho de Vila Viçosa receberá uma corrida de touros à portuguesa no dia 12 de agosto, por ocasião...

Agricultura biológica ainda tem expressão reduzida na região de Alqueva

A agricultura biológica continua a ter uma presença limitada na área de influência do regadio de Alqueva, apesar de existir margem para crescimento neste...

Autárquicas2021: Autarca de Portalegre saúda chumbo do TC e critica Associação de Municípios

A presidente da Câmara de Portalegre, eleita por um movimento independente, criticou ontem o “silêncio” da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP) ao longo...

Mulher detida em Sines por ameaçar várias pessoas com um machado

Uma mulher de 31 anos foi detida pela Guarda Nacional Republicana (GNR) no concelho de Sines, após alegadamente ameaçar várias pessoas com um machado...

Food Love Fest regressa ao Alentejo: “A gastronomia é hoje um motor importante do turismo” (c/fotos)

A terceira edição do Alentejo & Ribatejo Food Love Fest foi apresentada esta segunda-feira, 16 de março, na herdade da Mainova, no concelho de...

25 de Abril: Salgueiro Maia recebe a título póstumo o prémio “Memória e Identidade”

O tenente-coronel Salgueiro Maia vai ser homenageado a título póstumo na quinta-feira, em Castelo de Vide, vila onde nasceu e onde está sepultado, foi...

A comédia alentejana que vai assinalar o Dia Mundial do Teatro em Ourique

Ourique assinala o Dia Mundial do Teatro com a apresentação do espetáculo «Sopas de Pão – A Comédia Alentejana», marcado para sábado, 28 de...