A reação quase histérica à decisão do PSD de não endossar apoio institucional a nenhum candidato na segunda volta das eleições presidenciais, diz muito sobre o ambiente político dominado pela ansiosa dramatização permanente, onde qualquer gesto que não se alinhe com a lógica binária do “connosco ou contra nós” é tratado como uma heresia.
O PSD sempre respeitou o regime, a Constituição e a liberdade política. Convém recordar, parece ser necessário, que estamos a falar do partido de Sá Carneiro, de Cavaco Silva, de Durão Barroso, de Passos Coelho, de Marcelo Rebelo de Sousa e do Primeiro-ministro Luís Montenegro. Um partido estrutural da democracia portuguesa e não um corpo estranho à ordem constitucional. Quem sugere o contrário não está a fazer crítica, está a ser maldoso e intelectualmente desonesto.
Recuso esta chantagem política de inspiração grosseiramente leninista: se o PSD não apoia o candidato socialista, é cúmplice da extrema-direita, mas se o fizesse, estaria a trair a direita em bloco. É uma lógica tribal que reduz a democracia a um jogo de campos inimigos permanentemente mobilizados para a guerra. Abomino essa visão. A democracia liberal não é uma rixa de claques, é um sistema de liberdades, equilíbrios e responsabilidades.
O voto é, por definição, livre e individual. Não cabe a nenhum partido funcionar como tutor de consciências, sobretudo numa 2ª volta para a eleição presidencial. A tentativa de arrastar o PSD para uma escolha binária fabricada por comentadores em estado de excitação diária é politicamente pobre e democraticamente abusiva. Confundir liberdade de voto com cumplicidade e afinidade é um raciocínio que pertence aos manuais do autoritarismo maquiavélico mais abstruso.
Há um factor que contaminou toda a 1ª volta: a obsessão diária com as tracking polls, publicadas ao ritmo de episódios de uma série da Netflix. O eleitor passou a ser tratado como um investidor nervoso, reagindo em tempo real a oscilações de mercado. Uma democracia em sobressalto contínuo, onde a antecipação substitui a convicção.
Este ambiente revelou outro traço preocupante, uma hostilidade difusa contra quem trabalha, produz e é competente. Instalou-se um clima tóxico onde o sucesso no setor privado é automaticamente suspeito, o mérito é confundido com privilégio e a competência com corrupção. Trata-se de um igualitarismo ressentido que corrói o tecido cívico e afasta os melhores da vida pública, confundindo transparência com devassa e inveja.
A democracia liberal sobrevive porque há cidadãos que acreditam no trabalho, na responsabilidade e na competência. Tentar criminalizar isto é alinhar, consciente ou inconscientemente, com o discurso do fracasso.
Luís Marques Mendes conduziu uma campanha marcada pela serenidade, decência e moderação. Meteu as suas qualidades ao serviço de todos, representou o que a política pode ter de melhor: clareza de ideias, respeito institucional e sentido de Estado. Ofereceu uma candidatura exemplar, só o posso saudar com a consciência de que o país perdeu alguém que poderia ter sido um Presidente da República responsável.
Votarei, como qualquer cidadão livre, em quem entender garantir estabilidade. Não farei disso um exercício de virtude pública, cabe a cada cidadão decidir segundo a sua consciência.
Da minha parte, estarei, como sempre, pela democracia e pela defesa de um sistema de liberdades que o PSD ajudou a construir e que não deve ser posto em risco.
Luís Nunes dos Santos
















