A região do sul de Portugal conta uma história de múltiplos contrastes. Alentejo e o Algarve contêm dificuldades comuns, como, baixos salários, dependência de fundos, sectores económicos frágeis e com pouca pujança, vulnerabilidade a choques externos e uma sensação crónica de periferia.
Em vinte e seis anos, os Censos 2001‑2011‑2021 confirmam o que já intuíamos, o Alentejo é a região que mais população perdeu e uma das que mais envelheceu. Mais de 41 mil habitantes entre 2011 e 2021 saíram do Alentejo, sendo que é o território mais despovoado do continente e acumula também alguns dos índices de envelhecimento mais altos do país.
O Algarve ganhou residentes, sobretudo estrangeiros, e cresceu à custa de uma bolha litoral assente numa base económica estreita, o que o torna uma região profundamente desigual. Os números sugerem uma fragilidade partilhada a sul do Tejo. Este Sul tornou‑se um lugar onde o país envelhece, no Alentejo, ou descansa, no Algarve, mais do que um território onde se cria e reparte de forma justa a riqueza.
Nos indicadores de pobreza, a geografia é clara. O Alentejo é a região mais pobre do país e o Algarve conheceu taxas de exclusão social em torno dos 20% na última década.
Mais importante do que a percentagem é a natureza da pobreza que se desenha em cada uma das regiões. No Alentejo, ela é estrutural, de baixa qualificação, salários reduzidos, forte peso de população idosa, dependência de reformas pequenas e de prestações sociais, um mercado de trabalho curto e concentrado em poucos sectores.
No Algarve, a pobreza é intermitente e com pouca segurança laboral. Porque o mercado de trabalho é feito de contratos de temporada, com rendimentos que oscilam com a ocupação hoteleira e famílias que vivem a poucos metros de resorts de luxo, mas não conseguem pagar uma renda no mercado que esse mesmo turismo inflaciona.
Estes territórios partilham um problema comum, a dificuldade em transformar crescimento conjuntural em estrutural. No Alentejo, quando a economia cresce, o efeito não se traduz numa inversão demográfica. Já no Algarve, as épocas “boas” servem para “tapar buracos” deixados pelas crises anteriores, sem atacar a fundo a dependência de um único sector.
Os números da riqueza produzida dizem bastante sobre o modelo económico das regiões. Hoje, o Algarve vale já perto de 5% do PIB nacional e exibe um PIB per capita em torno de 29 mil euros, cerca de 108% da média portuguesa e perto de 90% da média europeia, sinal de que o sul turístico produz riqueza muito acima do resto do país, embora continue sem garantir estabilidade a quem o sustenta, o que é um dado relevante.
O Alentejo, por sua vez, surge num lugar paradoxal, está à frente do Algarve em volume de PIB, mas é a região que menos cresce. Entre 2021 e 2024, o PIB real alentejano registou apenas +0,4% de crescimento, a pior performance do continente, um sintoma de estagnação.
Em ambos os casos, a riqueza produzida está perigosamente concentrada. No Algarve, cerca de metade do valor acrescentado bruto nasce de alojamentos e restauração, sectores altamente expostos a choques externos e a mudanças de preferência dos turistas. No Alentejo, a divisão interna é perversa, o Alentejo Litoral supera 120% da média nacional de PIB per capita, enquanto o interior do Alentejo não chega a 80%, uma diferença de 40 pontos percentuais na mesma NUTS II, o que confirma um território a duas velocidades dentro da própria região.
O “país a sul do Tejo” partilha um sentimento de periferia e também de abandono. Periferia demográfica, com concelhos a perder habitantes ou incapazes de fixar famílias. Periferia económica, dependente de sectores intensivos em trabalho pouco qualificado. Periferia política, porque as decisões centrais tardam em reconhecer a especificidade de um território vasto, envelhecido e, por vezes, reduzido a caricaturas.
Outra dificuldade comum é a dependência. O Alentejo depende de fundos, de grandes projetos industriais, investimentos em infraestruturas, que raramente criam ecossistemas duradouros. O Algarve depende de turistas, de companhias aéreas, de plataformas de reservas e de fenómenos tão voláteis como o clima. Em ambos os territórios, basta um choque, como a pandemia ou alguma guerra, para que o castelo de cartas revele a fragilidade das bases sociais e económicas.
Por fim, há várias desigualdades. A desigualdade entre litoral e interior, que no Sul se torna quase um mapa de dois países. O eixo Sines–Alcácer–litoral alentejano, com indicadores acima da média e vastas áreas do Alto ao Baixo Alentejo onde o desenvolvimento nunca chegou, o litoral algarvio de resorts e marinas, e o interior serrano pobre, envelhecido e invisível ao olhar nacional.
A desigualdade nas próprias regiões, entre quem vive dos salários locais e quem chega com rendimentos externos, reformas estrangeiras, capitais imobiliários, receitas turísticas, distorcem preços, sobretudo da habitação, e expulsam os residentes tradicionais para zonas periféricas. A desigualdade entre gerações, com jovens a viverem em quartos alugados a preços impraticáveis ou a abandonarem o Sul em direção a Lisboa, ou ao estrangeiro, enquanto só os mais velhos ficam.
O Alentejo e o Algarve produzem valor, mas não têm poder, geram bens, serviços, paisagens e rendas que alimentam a narrativa turística do país, mas têm pouca capacidade política para determinar o seu sucesso.
A tensão de fundo que os dados dos últimos 26 anos revelam tornam nítido o declínio. O primeiro passo para soluções diferentes é ler estes números em conjunto.
Porque um Alentejo que perde população continuadamente, mas continua a produzir, e um Algarve que ultrapassa a média nacional em riqueza criada, mas não garante estabilidade mínima a quem o faz funcionar é um paradoxo que tem de ser soluções.
Se não houver uma viragem rápida a sul do Tejo, estas estatísticas deixarão de ser um aviso para se tornarem epitáfio irreversível.
Luís Nunes dos Santos















