Ao fim de dez anos, Marcelo tornou‑se o Presidente mais interventivo em democracia e, ao mesmo tempo, deixou a sensação nítida de que podia ter sido mais exigente, mais estruturante e menos refém da sua própria popularidade.
Marcelo toma posse em 2016 num país ainda marcado pela troika e apresenta‑se como conciliador e afetuoso, que casou bem com a leitura do próprio sobre a função presidencial. Um árbitro próximo, mais presente na rua do que no Palácio de Belém.
Essa opção define o registo dos mandatos, selfies, conversas informais, visitas constantes a escolas e IPSS, numa liturgia diária de proximidade que podia ter reconciliado os portugueses com a figura do Presidente da República.
Na pandemia, é Marcelo quem assume a responsabilidade de propor o estado de emergência, suportando o custo simbólico de suspender direitos para proteger vidas. Fá‑lo em articulação estreita com António Costa, consolidando a imagem de unidade do Estado num momento de apreensão coletivo.
Na crise de 2023, com a demissão de Costa após a Operação Influencer, Marcelo lê rapidamente a gravidade da erosão de confiança e decide dissolver a Assembleia da República, convocando eleições e devolvendo a palavra ao país.
No confronto com a lei da eutanásia, expõe a sua tensão interior entre a fé e a Constituição. Veta, envia o diploma para o Tribunal Constitucional, força o Parlamento a afinar a lei e aceita a vontade democrática, mesmo contra a sua convicção pessoal. Um raro exercício de pedagogia institucional sobre o significado do cargo numa democracia plural como a nossa.
Soma‑se também a presença obsessiva junto das vítimas das tragédias, o abraço a quem perde tudo, a disponibilidade total para fotografias, uma ginjinha ou uma conversa na rua. Essa coreografia permanente de empatia dá ao Presidente uma centralidade diferenciada, mas os mesmos traços que o tornam popular fragilizam também a sua autoridade. Em simultâneo foi a presidência da frase solta, do comentário em off, da dica ao jornalista à porta de casa.
A hipervisibilidade mediática onde o Presidente opina sobre tudo, quase todos os dias instalou um desconforto. A certa altura, a popularidade quase unanime transformou‑se numa armadilha. Um Presidente que se quer “gostado” por todos tem mais dificuldade em ser o institucional que diz “não” quando é preciso, nascendo assim a sensação do potencial desperdiçado.
Marcelo tinha capital político para ter ido mais longe na defesa do Estado e das suas instituições.
Historiograficamente, a década de Marcelo ficará associada à presidência de proximidade. O saldo é positivo, face às situações. No entanto, a história não se escreve apenas em função do que correu mal, escreve‑se também contra factualmente, isto é, o que poderia ter sido se tivesse sido mais instituicional?
O veredito justo é que Marcelo foi um bom Presidente, mas ficou aquém do que podia ter sido como Chefe de Estado.
Escolho para momento luminoso do mandato as Jornadas Mundiais da Juventude e a vinda do Papa Francisco a Lisboa. Nesse verão, Marcelo encontrou um cenário à sua medida, uma presidência de rua, festiva, emocional, capaz de falar tanto ao católico praticante como ao agnóstico curioso, ao miúdo da paróquia e ao turista de mochila às costas. O entusiasmo quase adolescente com que percorreu os eventos, foi de pura satisfação.
No extremo oposto, o episódio mais devastador surge, com o caso das gémeas e o alegado favorecimento no acesso a um tratamento de saúde, que ficou por explicar.
Desenha‑se assim um retrato completo da década de Marcelo Rebelo de Sousa.
Visto de longe deixa a impressão de que, com o mesmo homem, com a mesma história, podia ter ido mais longe, mas escolheu agradar a todos.
Agora começa outro capitulo da vida portuguesa.
Luís Nunes dos Santos
















