O alentejano médio como retrato estatístico explica muito bem a realidades. Vive numa região ampla, dispersa, envelhecida, com poucos centros fortes e muitos espaços onde o tempo anda mais devagar do que a política. Contudo, a lentidão do Alentejo não é uma virtude romântica por si só, é apenas o nome elegante de um atraso acumulado.
Se quisermos ser sérios, temos de começar pelos números. No Alentejo, apenas 14% da população com mais de 15 anos tem ensino superior, 9% não tem ainda escolaridade e 24% ficou pelo 1.º ciclo. Em Portugal, a estrutura dos trabalhadores é já bem mais qualificada, com 34% a ter ensino superior e 32% secundário.
É aqui que o “alentejano” médio ganha contorno. Não é apenas mais velho, é também menos protegido pela economia e pela qualificação. Trabalha, com mais frequência do que noutras regiões, em agricultura, comércio, restauração, construção, serviços locais e setor público.
São atividades essenciais, mas menos remuneradas do que as profissões concentradas em Lisboa e nas áreas urbanas do litoral. Por isso, quando se fala em salário médio no Alentejo, fala-se quase sempre de uma realidade comprimida por falta de sectores capazes de pagar melhor.
O rendimento confirma o mesmo mapa. Lisboa concentra o valor acrescentado, o Alentejo vive com muito menos margem. A diferença não é apenas salarial. É económica e social. Em Lisboa, a escolaridade abre portas a empregos mais produtivos e a salários mais altos. No Alentejo, a menor densidade populacional, a fragilidade do tecido empresarial e a dependência de sectores menos qualificados reduzem a capacidade de retenção de jovens e tornam a mobilidade social mais difícil, quem estuda e pode sair, sai. Quem fica, muitas vezes, fica por enraizamento, por família ou por falta de alternativa.
Também por isso o Alentejo é uma região com pouca renovação geracional. Há menos crianças, menos jovens e menos famílias em expansão. O alentejano médio vive num território onde a estrutura familiar encolheu e envelheceu. Isso tem consequências que vão muito além da demografia. Um território sem filhos deixa de ser apenas um território com menos habitantes, é um território com menos continuidade.
Mas cuidado com a tentação do lamento. O alentejano médio não é um derrotado. É, antes de mais, alguém que vive numa região que foi obrigada a fazer mais com menos. Mais distância para serviços, mais horas de estrada, mais dependência de empregos sazonais ou pouco qualificados, mais resistência à erosão do Estado e menos benefício da concentração urbana. Há aqui uma dignidade própria, uma espécie de economia da persistência, que o país urbano raramente percebe.
O problema é que a persistência não chega. Não substitui investimento, não cria emprego qualificado, não fixa população jovem, não resolve a falta de habitação acessível nem corrige a fratura entre litoral e interior.
Por isso, quando se tenta descrever o alentejano médio, o mais honesto é dizer que ele habita uma contradição. É uma pessoa mais envelhecida e menos escolarizada do que a média nacional, inserida numa economia menos rica, mais dispersa e mais dependente de sectores frágeis, mas também profundamente enraizada num território com forte identidade e enorme capital humano. O Alentejo não é um lugar vazio. É um lugar esvaziado.
Durante demasiados anos PS e PCP não souberam priorizar os Alentejanos. Podemos mesmo dizer que as visões do fatalismo autoimposto menorizaram toda a região.
O alentejano médio é alguém que resiste num lugar onde o futuro chegou devagar demais, porque nunca foi prioridade de quem o governou durante os últimos 50 anos e isso é sempre uma decisão política antes de ser um destino.
Luís Nunes dos Santos
















