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Ser mulher, representar o interior e ser presidente de uma associação académica

À primeira leitura, o título pode até soar estranho. Talvez exagerado, talvez dramático. Mas, quando se vive por dentro esta realidade, percebe-se que não é uma parvoíce, é apenas a verdade dita sem maquilhagem, sem mascara. Este trio ser mulher, ser do interior e liderar uma associação académica continua a ser um caminho sinuoso, cheio de pequenas batalhas silenciosas.

Há quem lhe chame bandeira. Há quem lhe chame sorte. Eu prefiro chamar-lhe aquilo que realmente é: trabalho, coragem e responsabilidade. Daquelas que pesam nos ombros, mas também fazem crescer por dentro.

Ser mulher continua, por si só, a ser um desafio. Os anos passam, os discursos mudam, mas os números não mentem e a forma como ainda olham para nós também não. Na política, são 77 mulheres para 236 deputados, na Assembleia da República. Nas autarquias, apenas 77 dos 308 municípios têm mulheres ao leme. No ensino superior, das 34 reitorias do setor público, só 8 são lideradas por mulheres. E, no movimento associativo académico, somos apenas duas presidentes a nível nacional. Duas. Em 2025.

E depois há o interior. O nosso interior. Esse território tantas vezes falado, poucas vezes compreendido. Um lugar onde o tempo passa mais devagar, mas onde os desafios chegam depressa. Transportes que faltam, oportunidades que migram, salários que não acompanham, e um custo de vida que insiste em surpreender pela negativa. Évora, com toda a sua beleza, continua a ser uma cidade cara para quem estuda. E o Alentejo terra de horizontes largos vê os seus jovens crescerem para depois partirem, quase sempre para o litoral ou para as grandes cidades, onde lhes prometem aquilo que aqui ainda não existe.

Ser presidente de uma associação académica no meio disto tudo é, inevitavelmente, um ato de resiliência. É entrar numa sala maioritariamente masculina e, ainda assim, manter a voz firme. É representar uma academia e, ao mesmo tempo, carregar dentro de si a certeza de que cada conquista também abre caminho para outras mulheres que virão.

Estamos em 2025. Quase 2026. Vivemos uma era que pede reflexões não daquelas apressadas, de curto prazo, mas as profundas, que mexem connosco e nos obrigam a olhar para o futuro com honestidade. Porque o futuro constrói-se em sonhos, sim, mas só ganha forma quando, no presente, temos coragem de mudar o que precisa de ser mudado.

E talvez seja isso que este texto quer dizer: que ser mulher, ser do interior e liderar é, ainda hoje, um ato de persistência. Mas também é um ato de esperança. E é dessa esperança que continuamos a fazer caminho.

Ana Beatriz Calado

Presidente da Associação Académica da Universidade de Évora

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